quarta-feira, 6 de abril de 2022

As Olimpíadas entre a pandemia e a bomba de Hiroshima e Nagasaki

 

(Foto: Divulgação/COI)

As Olimpíadas entre a pandemia e a bomba em Hiroshima e Nagasaki


Por: Francisco José Nunes


A cerimônia de encerramento das Olimpíadas de Tóquio, prevista para o dia 8 de agosto, acontecerá dois dias após a data da explosão da bomba atômica em Hiroshima e um dia antes da data da explosão da bomba atômica na cidade de Nagasaki. São 76 anos deste acontecimento trágico.


O Presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI) Thomas Bach visitou a cidade de Hiroshima no dia 16 de julho de 2021, sob protestos de lideranças locais e de movimentos pacifistas. O presidente do COI alegou que sua visita era um gesto a favor de “um mundo pacífico e sem armas nucleares”. Entretanto, uma das lideranças locais afirmou que, em plena pandemia: “Manter as Olimpíadas na situação atual, onde muitas vidas são perdidas, vai contra o espírito dos jogos, que deveriam ser um festival de paz”, disse Kunihiko Sakuma, líder de um grupo de apoio aos “hibakusha” (sobreviventes dos bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki).


Até o dia 11 de julho de 2021 o Japão havia registrado 14.943 pessoas mortas pela COVID-19, com um total de 828 mil infectados. O número de pessoas vacinadas até julho de 2021 era de apenas 18% da população. Pesquisas realizadas até julho, registraram uma taxa de 60% a 80% dos japoneses contrários à realização das Olimpíadas.


Um episódio lamentável relacionado a essa olimpíada, ocorreu após a derrota do surfista brasileiro Gabriel Medina, para o surfista japonês Kanoa Igarashi. Muitos torcedores brasileiros, alegando que os juízes beneficiaram o atleta japonês em detrimento do atleta brasileiro, disseram que a bomba atômica em “Hiroshima e Nagasaki foi pouco”. Essa ofensa entrou para o TT do Twitter. Mas uma outra parte dos torcedores manifestou-se contrária ao uso dessa expressão.


Vamos recordar o significado histórico das bombas

atômicas em Hiroshima e Nagasaki.


No dia 6 de agosto de 1945 a cidade japonesa de Hiroshima foi atingida pela primeira bomba atômica da história da humanidade. Eram 8h15 da manhã (hora local) quando o Boeing B-29, pilotado por Paul Tibbets, atirou a bomba, resultando na morte de cerca de 140 mil pessoas.


O avião foi batizado com o nome de “Enola Gay”, nome da mãe do piloto. Após afastar-se do local da explosão, o copiloto Robert Lewis observou o tamanho da tragédia e indagou: “Deus, o que fizemos”?


Esta bomba não foi suficiente para obrigar o Imperador Hirohito a assinar o acordo de rendição. No dia 9 de agosto, às 11h02, os EUA atiraram a segunda bomba atômica, desta vez na cidade de Nagasaki, resultando na morte de cerca de 70 mil pessoas.


A bomba atômica, além dos efeitos materiais, também resultou em inúmeros efeitos simbólicos. Dentre eles, o nascimento da “Pós-Modernidade”. Esta “condição pós-moderna” que os filósofos identificaram ao longo da segunda metade do Século XX.


A eclosão da Primeira e da Segunda Guerra Mundial , culminando com a explosão da bomba atômica, colocou em xeque os ideais da Modernidade. Caracterizada pela supervalorização da Razão, da democracia burguesa e do desenvolvimento tecnológico. A morte de milhões de pessoas e a destruição de vários países, principalmente na Europa, evidenciou a “crise da Modernidade”. Algumas das questões colocadas foram: “por que a Razão é incapaz de deter a barbárie?”; “Por que o fascismo e o nazismo nasceram na Europa?”; “Este modelo de “Civilização Ocidental Cristã” deve ser a referência para a humanidade?”.


A bomba atômica desencadeou uma série de mudanças na maior parte da humanidade. Dentre elas destacamos duas: o neo-individualismo e a despolitização. Diferentemente do individualismo da modernidade (indivíduo livre e autônomo, superando o coletivismo da Idade Média e se apropriando das conquistas da Revolução Francesa), o neo-individualismo pós-moderno é caracterizado pelo descompromisso, pelo “não tô nem aí” e mais recentemente pela expressão popular: “foda-se”.


São características desse neo-individualismo: o narcisismo, o hedonismo e o conformismo. O narcisismo centrado no culto ao próprio corpo, atingindo uma espécie de “corpolatria”. Caracterizado pela grande ocupação de tempo na academia de educação física, exercitando os músculos e, nos salões de beleza, cuidando da estética pessoal.


O hedonismo ocupa o principal objetivo na vida da pessoa; adota-se o lema “Carpe diem”, isto é, aproveite o momento. Só faça coisas que proporcionem prazer e, de preferência, prazer imediato.


O conformismo, porque busca adaptar-se às circunstâncias, sem desejo de transformar a sociedade.


Vinculado a este comportamento, emerge a despolitização. O “sujeito pós-moderno” não participa em eleições e nem em outras formas de organização que impliquem em responsabilidades sociais e políticas; dá as costas para as grandes causas, tais como: a luta pela paz, o combate à fome, a luta contra as desigualdades sociais e econômicas.


Após 76 anos das bombas atômicas atiradas no Japão e em plena pandemia do COVID-19, somos desafiados a pensar sobre o sentido da existência humana. De acordo com os filósofos e filósofas existencialistas: o ser humano é “lançado ao mundo”, como um bebê quando nasce. É um ser imperfeito, inacabado e aberto para se fazer e refazer. Mas a autoconstrução não se faz por si só, ela também depende das circunstâncias históricas. E, na medida em que o ser humano constrói a sua própria existência, ele também deve lutar para que as circunstâncias sociais mudem para melhor.


Os filósofos e filósofas existencialistas alertam para o fato de que a existência não consiste numa longa jornada marcada pelo crescimento, pelo sucesso e pelo progresso. Também faz parte da existência as doenças, as guerras, as injustiças, o envelhecimento e a morte. Portanto, é indispensável, a luta constante contra a exploração social, o enfrentamento da angústia interior e de todo tipo de sofrimento humano.


Em suma, existir implica na relação da pessoa consigo mesma, com as outras pessoas, com a natureza, com os animais e com as coisas. Um enfrentamento constante, mas libertador e parte fundamental na construção de uma sociedade onde caibam todos e todas. Uma sociedade que valorize a vida e a vida em plenitude.


Sugestões:


1) O estudo sobre a Pós-Modernidade é vasto. Recomendo para introdução o livro: “O que é pós-moderno”, do escritor Jair Ferreira dos Santos, da Coleção Primeiros Passos, da Editora Brasiliense.


2) Sobre o Existencialismo, corrente filosófica importantíssima no Século XX, tem uma quantidade enorme de livros, filmes, documentários, peças de teatro etc. Recomendo como introdução o livro: “O Existencialismo é um Humanismo”, de Jean-Paul Sartre.


3) Sobre a Bomba de Hiroshima, o poeta e diplomata Vinícius de Moraes não ficou indiferente! Em 1954 ele publicou o poema “Rosa de Hiroshima”, que foi musicado em 1973 por Gerson Conrad, integrante da “Banda Secos e Molhados”. Esta música foi gravada por Ney Matogrosso e entrou para a lista das 100 melhores músicas brasileiras, segundo a Revista Rolling Stone.

Ney Matogrosso - Rosa de Hiroshima

https://www.youtube.com/watch?v=sR1gC4GsFGM


Autor:

Francisco José Nunes

Mestre em Ciências Sociais - PUC-SP; Graduado em Filosofia; Professor na Faculdade Paulista de Comunicação - FPAC.


P.S.: Este artigo foi publicado originalmente no site “Construir Resistência”, no dia 06/08/2021.


terça-feira, 5 de abril de 2022

Elysium, um condomínio no céu

 


Elysium, um condomínio no céu

Por: Francisco José Nunes

 

As recentes viagens ao espaço, realizadas pelos homens mais ricos do planeta, desencadeou o chamado “turismo espacial”. Dentre eles estão: Elon Musk (Tesla e SpaceX), Jeff Bezos (Amazon e Blue Origin) e Richard Branson (Virgin Record e Virgin Galactic).

Mas o objetivo desses empresários não é apenas faturar com o “turismo espacial”. Eles têm muitos planos extraterrestres! O empresário Elon Musk afirmou que pretende colonizar o planeta Marte até 2050. Ele pretende levar para Marte cerca de 1 milhão de terráqueos. Para criar as condições de habitabilidade ele já cogitou, inclusive, a explosão de uma bomba atômica com o objetivo de criar água e alterar o clima daquele planeta.

Considerando o avançado grau de devastação do meio ambiente no planeta Terra, tudo indica que os ricaços pretendem construir um condomínio de altíssimo padrão fora do planeta Terra.

Sempre foi um desejo da maioria dos seres humanos viver num lugar paradisíaco.

Essas circunstâncias fazem lembrar do filme “Elysium”, que projeta este lugar na órbita do planeta Terra, por volta do ano 2159. Trata-se de um enorme condomínio, equipado com as mais avançadas tecnologias e com um equilíbrio ecológico perfeito.

No planeta Terra vive uma imensidão de miseráveis, em condições precárias, com a natureza devastada e controlada por robôs-policiais.

A trama do filme se desenvolve em função da necessidade de duas pessoas que precisam desesperadamente de um tipo de tratamento médico que só está disponível em Elysium. Mas existe uma Lei Anti-imigração, que impede o acesso da “ralé” que vive na Terra, aos recursos avançados de medicina em Elysium.

Uma dessas pessoas é Max da Costa, operário de uma fábrica de robôs, chamada “Armandyne”; ocorreu um acidente no local de trabalho e Max foi contaminado. Após o diagnóstico feito por um robô-enfermeiro, dizendo que Max só teria mais cinco dias de vida, bateu o desespero. Ele precisava ir para Elysium, passar por uma máquina que faz reprogramação genética, com capacidade de curar todo tipo de doença.

Outra pessoa que precisava de tratamento é Matilda, filha de Frey, uma enfermeira e que foi o primeiro amor de Max. Ambos procuram Spider Ramos, um coiote, especialista em tecnologia e proprietário de uma nave pirata, capaz de invadir Elysium.

Neste ínterim, Rhodes Delacourt, a Secretária de Segurança de Elysium, está planejando um Golpe de Estado, para derrubar o Presidente de Elysium, o indiano Patel. Ela trama o golpe com John Carlyle, o proprietário da fábrica de robôs Armadyne, que fornece robôs para Elysium e para o planeta Terra. Eles usam Kruger, um mercenário e espião infiltrado; e mobilizam um bando para dar o golpe.

O Golpe de Estado consiste em roubar os dados orgânicos-tecnológicos capazes de reiniciar Elysium, fazendo a transferência desses dados para o cérebro de Max. Entretanto, o desejo de Max não é participar do golpe, mas implantar um regime igualitário entre Elysium e o planeta Terra. De tal forma que os habitantes da Terra tenham acesso às conquistas científicas exclusivas de Elysium.

No filme os habitantes da Terra falam espanhol e inglês. Porque o muro que separava os EUA do México não fazia mais sentido. Ao passo que a língua oficial de Elysium é o francês, numa clara referência à marca de elitismo e aristocracia, vinculadas à cultura francesa.

O filme suscita uma série de provocações sobre a necessidade de discutirmos os rumos do desenvolvimento científico no planeta Terra atualmente, tais como: a Inteligência Artificial, o Projeto Genoma, Robótica, as Hiper Tecnologias, a Nanotecnologia, a Biotecnologia, o Aquecimento Global e a Neurociência.

Todo o desenvolvimento que ocorre nestas áreas está delimitado por um aparthaid social e espacial. Neste início de Século XXI, o grande condomínio Elysium ainda não está localizado na órbita da Terra, mas está situado na “lógica do condomínio” de nossa sociedade. Em espaços inacessíveis para a maior parte da humanidade.

Resta saber se surgirão alguns “coiotes sociais”, especialistas em tecnologias, semelhantes ao Spider; e alguns “predestinados”, semelhantes a Max da Costa, para se incorporarem na luta por uma sociedade mais fraterna, humana e igualitária.

No filme o papel de Frey é desempenhado pela atriz brasileira Alice Braga e o papel de Spider é desempenhado pelo ator brasileiro Wagner Moura. Quem faz o papel de Max da Costa é o ator Matt Damon. Especialmente estes três atores têm um grande envolvimento com causas sociais e políticas. Aspectos importantíssimos para os dias de hoje.

A palavra Elysium significa “a morada dos bem-aventurados”, também conhecida por Campos Elísios. 

O filósofo alemão Nietzsche dizia que somos hiperbóreos, isto é, assim como os gregos antigos, acreditamos na existência de uma terra com fartura e com uma eterna aurora boreal, para onde os deuses nos levarão e viveremos eternamente. Pelo visto este lugar está em processo acelerado de construção, faltando apenas garantir a vida eterna. Mas esta é uma promessa que se pretende realizar antes do final do Século XXI!

Serviço:

Filme: Elysium (2013) - 1h49 min

Direção: Neill Blomkamp

Plataforma: Amazon Prime Video


Francisco José Nunes

Mestre em Ciências Sociais - PUC-SP; Graduado em Filosofia; Professor na Faculdade Paulista de Comunicação - FPAC. 


P.S.: Esta resenha foi publicada originalmente no site:

"Construir Resistência", no dia 29 de julho de 2021.



segunda-feira, 4 de abril de 2022

Utopia e distopia na minissérie Years and Years

 


Utopia e distopia na minissérie Years and Years

 Por: Francisco José Nunes.

 

Análise sem spoiler!

 

          A minissérie Years and Years (BBC/HBO - 2019), criada por Russell T. Davies causou muito impacto porque, segundo muitos comentários, pegou pesado com o uso da distopia.

 

          Os seis episódios da minissérie acompanham a vida da família Lyon por 15 anos. Tudo começa em uma noite crucial, em 2019. Os principais membros da família são: Muriel Deacon (Anne Reid) é a matriarca da família, uma avó devotada, faz críticas perspicazes sobre o cotidiano; Stephen Lyons (Rory Kinnear) é o filho mais velho, mora numa linda casa em Barnsbury (Londres), é casado com Celeste, pai de duas garotas (Bethany e Ruby), tem uma ótima condição financeira, é calmo, sorridente e comporta-se como o pacificador; Celeste Bisme-Lyons (T’Nia Miller) é casada com Stephen, é contabilista, moderna, inteligente, estilosa, mãe de Bethany e de Ruby.

 

          Também fazem parte da família Lyons: Daniel Lyons (Russell Tovey) o terceiro filho, trabalha no Departamento de  Habitação da Prefeitura de Manchester, é casado com Ralph (Dino Fetscher) que é professor do ensino fundamental; Rosie Lyons (Ruth Madeley) é a mais jovem das Lyons, é cadeirante, nasceu com espinha bífida (defeito congênito na medula espinhal), mãe solteira de Lee e Lincoln, de dois pais diferentes, trabalha como chef de cozinha numa escola local, é muito divertida; Edith Lyons (Jessica Hynes) é a segunda filha, é ativista e internacionalista da causa ambiental, viajou bastante pelo mundo; Bethany Bisme-Lyons (Lydia West) é a filha mais velha de Stephen e Celeste, é uma aluna brilhante, tímida, obcecada por transumanismo, implantou um telefone na mão e pretende fazer upload da sua consciência para a nuvem.

 

          A personagem que não pertence à família Lyons, mas que influencia muito a vida familiar e a sociedade britânica é Vivienne Rook (Emma Thompson). Ela é uma empresária que entra nas disputas políticas como uma representante da extrema-direita. Faz declarações absurdas, mas que com o tempo vão sendo normalizadas. Através de várias eleições vai galgando o poder até se transformar numa governante poderosa e fascista.

 

          Para refletir sobre as questões colocadas pela série é inevitável mencionar o governo da Primeira-Ministra Margaret Thatcher e a sua herança maldita. Ela exerceu o poder no Reino Unido entre 1979 e 1990. Combateu o chamado “Estado de Bem Estar Social”, política econômica de Estado, implantada no pós-guerra, que buscava garantir o acesso às necessidades básicas para todas as pessoas. Por outro lado, ela impôs a política econômica do Liberalismo, reduzindo a ação do Estado nas áreas estratégicas da sociedade (saúde, educação, energia, transporte, abastecimento, moradia). Introduzindo as famosas privatizações. A sua filosofia política está bem resumida nesta declaração: “Não existe isso que chamam de sociedade. Existem indivíduos, homens e mulheres, e existem famílias. E o Governo só pode agir através das pessoas, mas são as pessoas que devem zelar por seu próprio interesse. Todos devemos cuidar de nós mesmos, e depois, também, de nossos vizinhos”. Esta declaração, infelizmente, soou como música para muitos ouvidos. Ela estimula absurdamente o individualismo. Na prática, Thatcher atacou os sindicatos, os partidos políticos e todas as formas de organização social. Isolar as pessoas é a melhor forma para dominá-las.

 

          Ao assumir o poder, Thatcher pegou o Reino Unido com uma inflação de 25% e uma taxa de desemprego de 17%. Mas tirou proveito desta situação para implantar as malfadadas “políticas de austeridade”. Na condição de principal representante do conservadorismo, suas bandeiras eram “a família e a segurança”. Sua grande batalha inicial foi contra os sindicatos, principalmente o sindicato dos mineiros. Que ela venceu na base da pressão econômica e da repressão policial. Simultaneamente ela desqualificou os partidos políticos, principalmente o Partido Trabalhista. 

 

          No plano social, Thatcher: interrompeu o programa de moradias populares, isso prejudicou muito a juventude, porque os jovens ficaram sem opções para sair da casa de seus pais; fez inúmeras terceirizações no sistema de saúde NHS (o SUS britânico); apoiou a famigerada lei conhecida por “Seção 28”, que proibia as escolas de “promover o ensino da aceitabilidade da homossexualidade”, essa lei vigorou entre 1988 e 2003; dentre outras malvadezas.

 

          Após 11 anos no poder o saldo foi o seguinte: para uma líder política que “defendia a família e a segurança”, a taxa de divórcio aumentou 11%; o número de roubos aumentou 53% e de crimes em geral aumentou 34%; o número de famílias monoparentais aumentou acentuadamente. Provavelmente, a causa dessa hecatombe social encontra-se na política econômica adotada: que provocou desindustrialização; redução dos direitos trabalhistas e sociais; e, aumentou o abismo entre os mais ricos e os mais pobres.

 

          Este breve panorama do Governo Thatcher facilita a compreensão dos dilemas colocados pela série Years and Years. Não se trata de dizer que Vivienne Rook seja uma sósia de Margaret Thatcher, Vivi “herdou” o estado de terra arrasada deixado pelas políticas de Thatcher. Os políticos de direita, depois que fracassam, abrem caminho para o fascismo. Logo no primeiro episódio Vivienne diz: “Eu não entendo mais o mundo. Antes esquerda era esquerda, direita era direita, os EUA eram os EUA”. Essa tática dos políticos de extrema direita é típica. Criar confusão no sentido das definições. Mas, infelizmente, essa declaração tem grande aceitação popular. 

 

Considerando que a maioria das pessoas se recusa a assumir as responsabilidades necessárias para viver em sociedade. Isto é, para viver em sociedade é preciso: dedicação ao estudo dos problemas e das soluções propostas; participação nos debates e nas decisões; enfrentamento dos conflitos e da pressão dos mais poderosos. Infelizmente, a maioria das pessoas prefere ficar omissas, “neutras”, não querem “polarizar”. Resultado: a sociedade afunda, entra em decadência.

 

          A série Years and Years coloca um turbilhão de problemas para serem enfrentados: a devastação ambiental, o abismo entre ricos e pobres, a precarização das condições de trabalho, as crises econômicas, o negacionismo, o terraplanismo, a causa dos refugiados e imigrantes, a homofobia, a xenofobia, entre outras. Neste sentido, a série apresenta um mundo distópico. Entretanto, a própria série indaga: “Pode uma família comum mudar o mundo?”. É na tentativa de dar a resposta que a série termina. Isto é, buscando refazer a boa e velha utopia política, na luta por um mundo melhor.

 

          A disputa entre utopia e distopia foi muito acirrada no Século XX e continua agora no Século XXI. O termo utopia compreendido aqui enquanto desejo de uma sociedade ideal, perfeita. Neste caso, é inevitável citar o texto do cineasta argentino Fernando Birri: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.

 

          A distopia, por sua vez, significa “um país infeliz”, “um lugar doente, ruim, desfavorável”. Daí entendermos o sucesso atual das séries, filmes e livros distópicos. Depois da eleição do Trump a venda de livros sobre distopia aumentou muito. Porque as pessoas queriam entender o que estava acontecendo. Diante da falência da “democracia burguesa”, com todos os seus problemas, temos pela frente uma grande avenida para caminharmos rumo à construção de uma sociedade fraterna, solidária, participativa, equânime, ecológica e “perfeita”.

 

Autor:

Francisco José Nunes

Mestre em Ciências Sociais - PUC-SP; Graduado em Filosofia; Professor na Faculdade Paulista de Comunicação - FPAC. 

 

Para saber mais sobre o Governo Thatcher:

Artigo: “Não, Thatcher não salvou a economia”, Andrew Kersley

https://jacobin.com.br/2021/01/nao-thatcher-nao-salvou-a-economia/

 

P.S.: Este artigo foi publicado originalmente no site “Construir Resistência”, no dia 23/07/2021.


quarta-feira, 30 de março de 2022

O filme "A Tabacaria" e os desafios do nosso tempo

 


O filme “A Tabacaria” e os desafios do nosso tempo

 Por: Francisco José Nunes


Poderia Freud ser um conselheiro amoroso?

Pois é, o filme “A Tabacaria”, do diretor austríaco Nikolaus Leytner, baseado no romance de mesmo nome, escrito por Robert Seethaler, usa este artifício para tratar de diversos temas altamente relevantes. Inclusive as relações amorosas.

Mas não se trata de um filme água com açúcar, para ser exibido na sessão da tarde. Muito pelo contrário, trata de inúmeros conflitos, situados especialmente na década de 1930, em Viena.

O filme conta a história de Franz, um jovem de 17 anos, que vive no interior da Áustria e é obrigado a migrar para Viena, em busca de trabalho. O filme recorre a inúmeras cenas de realismo fantástico, muito semelhantes às dos filmes de Lars Von Trier, como por exemplo: “Melancolia” e “O Anticristo”.

Logo no início do filme, Franz está mergulhado no fundo do Lago Attersee, enquanto sua mãe está mantendo relações sexuais com o companheiro, embaixo de uma árvore. Quando começa uma tempestade e Franz corre para dentro de casa. O companheiro de sua mãe corre para dar um mergulho no lago, mas ele morre, vítima de um raio que caiu no lago naquele momento. Sua mãe, Margarete, não chora, porque sabe que o companheiro morreu feliz e ela precisará cuidar do filho.

Diante da morte do seu provedor, Margarete sente-se obrigada a enviar o filho para ir trabalhar em Viena, a capital da Áustria. Franz não quer abandonar aquela vida idílica. Ele mergulha em um tonel com água e fica respirando com a ajuda de um canudinho. Mas é encontrado e enviado de trem para Viena, para trabalhar na tabacaria de um ex-amante de sua mãe, Otto Trsnjek, um homem combativo, que lutou na 1ª Guerra Mundial e perdeu uma das pernas no campo de batalha.

Para iniciar o seu trabalho, Franz começa a conhecer as características dos produtos vendidos na tabacaria, especialmente os charutos cubanos. Os preferidos de um cliente mais do que especial, Sigmund Freud. O jovem interiorano começa a se adaptar à vida na capital, sua agitação urbana, o comércio, as festas e tudo mais. Neste ínterim conhece a jovem Anezka e se apaixona por ela. Mas misteriosamente ela desaparece. Depois de muitos percalços, descobre que ela é dançarina de cabaré. No estilo vaudeville, muito comum no final do século XIX e início do século XX. Eram casas de espetáculo com apresentações de dançarinas, músicos populares e eruditos, mágicos, comediantes, imitadores etc. É nesta oportunidade que Franz mantém sua primeira relação sexual. Mas Anezka some novamente, causando muita angústia em Franz.

Quando Franz vai até ao cabaré pela primeira vez, assiste a uma apresentação de um humorista que ridiculariza Hitler. Tempos depois, assiste a um comediante que faz piadas antissemitas para agradar os oficiais nazistas que estão assistindo a apresentação.

Neste período, Franz faz amizade com Freud e começa a pedir conselhos amorosos. Mas, de cara, o “Pai da Psicanálise” diz: “Ninguém sabe nada do amor; muito menos eu”. Entretanto, Franz não desiste e os bate-papos entre ambos passam a ser frequentes.

Esta história está situada na década de 1930, período em que o movimento nazista passa a influenciar fortemente a Áustria, até culminar com a anexação de seu território pela Alemanha, em 12 de março de 1938. A tabacaria de Otto passa a sofrer vários ataques, entre eles diversas pichações, dizendo que aquele estabelecimento vendia para judeus e comunistas. Uma das pichações foi escrita com sangue de animais. Provavelmente feita pelo açougueiro, que ficava na mesma calçada da tabacaria e era simpatizante no nazismo.

O filme aborda especialmente dois grandes temas: a Psicanálise e o Nazismo. No campo da Psicanálise faz referências aos estudos sobre a interpretação dos sonhos e aos estudos sobre a sexualidade.

Franz relata para Freud seus sonhos e pesadelos. Freud recomenda a Franz que mantenha papel e caneta ao lado da cama, para anotar os sonhos logo que acordar. Infelizmente, no filme, Freud não analisa os sonhos de Franz. E, quanto à sexualidade, o filme vai apresentar todos os conflitos relacionados com os tabus sexuais, as repressões e o conservadorismo tão prejudicial à vivência de uma sexualidade saudável e sem opressões.


A cena inicial do filme faz uma relação entre o gozo e a tempestade.

No que se refere ao Nazismo, o filme mostra as várias situações do cotidiano em que as ideias fascistas vão penetrando. Principalmente através do homem comum, o homem medíocre, o machista, ignorante, alienado, que convive com várias frustrações e recalques.

É importante lembrar que a Áustria sempre cultivou um ambiente antissemita. Por exemplo, os músicos judeus eram proibidos de fazerem parte da Ópera da Corte de Viena, no século XIX. Só admitiam músicos católicos. Por este motivo, o maestro judeu Gustav Mahler se converteu ao catolicismo para poder tocar em Viena.

O ator que faz o personagem de Freud é Bruno Ganz, o mesmo que ficou popular ao representar Hitler, no filme “A Queda: as últimas horas de Hitler”. Um excelente ator! Mas faleceu em fevereiro de 2019.

O filme apresenta Freud no auge de suas capacidades, mas frágil diante do Nazismo. Em 1938, depois de inúmeras agressões por parte dos nazistas, Freud decide migrar para a Inglaterra. No dia 4 de junho deixou Viena, com 82 anos de idade. No ano seguinte, em Londres, faleceu no dia 23 de setembro.

É paradoxal assistir a este filme e comentá-lo, sabendo que a qualquer momento poderemos ser perseguidos e possivelmente mortos por defendermos os direitos trabalhistas, os direitos sociais e o meio ambiente; lutarmos contra o machismo, o feminismo, o racismo, a homofobia e a transfobia.


Autor:

Francisco José Nunes

Mestre em Ciências Sociais - PUC-SP; Graduado em Filosofia; Professor na Faculdade Paulista de Comunicação - FPAC. 


Serviço:

Filme: A Tabacaria (2018) - 1h57min.

Direção: Nikolaus Leytner

Plataformas: Telecine, Apple TV, Now, Google Play.


P.S.: Esta resenha foi publicada originalmente no site "Construir Resistência", no dia 13 de agosto de 2021.

segunda-feira, 28 de março de 2022

São Petersburgo, a cidade de gelo

 

Cartaz do filme "Cidade de Gelo"

“São Petersburgo, a cidade de gelo”


Autor: Francisco José Nunes



Análise do filme, sem spoiler!


Filme: Cidade de Gelo (2021) - 2h16min

Título em russo: Serebyanye Komki

Título em inglês: The Silver Skates

Plataforma: Netflix


Direção: Mikhail Lockshin


O filme Cidade de Gelo não é apenas um drama romântico. Ele é um mergulho na Rússia, em sua fase mais acelerada rumo à Revolução de 1917. O berço dessa revolução é a cidade de São Petersburgo.

O filme trata do romance entre Matvey (Fedor Fedotov), um jovem proletário, e Alice (Sofia Priess), uma jovem da aristocracia russa. Matvey trabalha como entregador para uma confeitaria chique de São Petersburgo, a “Le Grand Pie”. Entretanto, certo dia ao receber a tarefa de entregar uma encomenda com urgência, ele não consegue entregar dentro do prazo previsto. A consequência é que ele foi demitido e humilhado pelo proprietário da confeitaria. O motivo do problema foi a interrupção de uma das principais avenidas de São Petersburgo para a passagem da carruagem de um membro da aristocracia local.

Cabisbaixo, Matvey cruza o caminho de Alexey (Yuriy Borisov), chefe de uma gangue de batedores de carteiras. Mas essa gangue tem suas peculiaridades, por um lado o estilo Robin Hood e por outro lado a simpatia com as ideias marxistas que fervilhavam na Rússia, nas últimas décadas do Século XIX. Além de estar desempregado, Matvey também está preocupado com seu pai - Pietr - pois ele está com um estágio avançado de tuberculose e precisa de muito dinheiro para fazer um tratamento especializado. Por este motivo Matvey entra para a gangue. O pai de Matvey trabalha como acendedor de lampiões de rua, ele precisa acender 50 lampiões no início da noite e apagar os mesmos lampiões na manhã seguinte. Um trabalho miserável!

Depois de um certo tempo, Matvey mostra uma grande quantidade de dinheiro para seu pai. Mas o pai não aceita porque desconfia que a origem do dinheiro tenha sido o roubo. Ocorre uma discussão muito tensa entre pai e filho, culminando numa declaração de Matvey que coloca em dúvida a existência de Deus. Trata-se de uma referência ao pensamento niilista, que nasceu na Rússia durante o Século XIX.


Foto: Entrada do Museu Hermitage, em São Petersburgo 

(Palácio de Inverno na época do Czarismo)

Foto do autor



Durante uma das andanças noturnas da gangue pelas ruas de São Petersburgo, Matvey identifica no portão de uma mansão o mesmo brasão da carruagem que interrompeu a avenida e que foi o principal motivo para sua demissão como entregador da confeitaria. Então a gangue decide entrar no jardim da mansão e deixar sua marca no palácio. Mas ao subir em uma das sacadas do palácio, Matvey conhece Alice. Ocorre um acidente e ele vai embora rápido.

Alice é uma jovem que recebe a educação tradicional da aristocracia russa. Ela tem uma preceptora inglesa, que ministra lições de etiqueta, língua inglesa e cultural geral. O desejo de Alice é fazer faculdade de Química. Mas seu pai, Nikolai Vyazemsky (Ministro do Czar), é contra o acesso de mulheres ao ensino superior. Ela queria ser aluna do cientista Sergey Koltakov. Esse personagem representa o cientista Dmitri Mendeleev, o criador da “Tabela Periódica dos Elementos Químicos”, que era professor em São Petersburgo. Mendeleev nasceu na Sibéria e durante sua adolescência recebeu aulas de Ciências de seu cunhado Bessagrin, um simpatizante do “Movimento Dezembrista”. Este movimento defendia uma “monarquia parlamentar” e várias ideias progressistas. Mendeleev irá defender essas ideias ao longo de sua vida, inclusive o direito das mulheres ao ensino superior.

Numa determinada cena do filme Alice recebe um presente de Alexey (o líder da gangue) o volume I da obra “O Capital”, de Karl Marx. A primeira tradução desse livro, escrito em alemão, para outra língua, foi justamente para a língua russa. A primeira edição em russo foi publicada em 1872, cinco anos depois da publicação da edição original em alemão e quinze anos antes da tradução para o inglês.

Mais adiante o pai de Alice dá um flagrante no quarto dela e a encontra lendo “O Capital”. Ele diz que ela está influenciada por ideias "dezembristas" e manda queimar imediatamente todos os livros dela. É importante registrar que no período em que ocorre o filme, final de 1899 e início de 1900, Lênin exerce uma grande influência em São Petersburgo. Ele participou da criação do partido “União da Luta pela Libertação da Classe Operária”, em 1895; mas foi preso em 1897 e enviado para cumprir pena na Sibéria até 1900. Lênin fez faculdade de Direito em São Petersburgo e sempre foi um aluno brilhante.

O contexto histórico do filme é muito importante, porque trata da última fase do czarismo e da fase anterior à Revolução de 1917. O Czar Nicolau II, que exerceu o poder de 1894 até 1917, era um governante indeciso e inexperiente. Para comemorar a sua entronização, foi anunciada uma festa popular com comida, bebida e entrega de brindes para o povo. Entretanto, o precário planejamento da festa resultou numa grande tragédia, no dia 18 de maio de 1896. O grande número de pessoas que se dirigiu para o Campo de Khodynka (em Moscou) e a falta de organização adequada resultou na morte de cerca de 1.500 pessoas pisoteadas e no ferimento de cerca de 20.000 pessoas. Por este e por outros motivos, Nicolau II ganhou o apelido de “o Sanguinário”.

O filme tem um roteiro leve e ágil; tem uma boa mescla de romance, humor e fantasia. Adota inúmeras referências cinematográficas, dentre elas: “Titanic”, “Romeu e Julieta”, “Robin Hood”, com uma estética dos “Contos de fadas da Disney”. Isso pode transformar o filme num bom passatempo.

Na trilha sonora, o melhor da música clássica: Debussy, Bach, Haydn, Wagner, Strauss e Tchaikovsky. O músico russo Piotr Tchaikovski estudou em São Petersburgo, na França e na Alemanha. Quando retornou para a Rússia (1879) foi tratado como um músico “excessivamente ocidental”. Foi graças a uma campanha encabeçada pelo escritor Dostoievski, que a obra de Tchaikovsky passou a ser tratada como uma “música universal” e bem aceita na Rússia. O músico e o escritor, dois gênios que viveram em São Petersburgo neste período. Tchaikovsky morreu em 1893 e Dostoievski em 1881. Em novembro de 2021 vamos comemorar o "Bicentenário do nascimento de Dostoievski".



Cartaz de celebração do "Centenário da Revolução Russa",
em novembro de 2017, em São Petersburgo. Foto do autor.



Vale a pena assistir o filme também pelas imagens de São Petersburgo e seus arredores. A cidade é linda o ano todo, mas no inverno tem suas peculiaridades. As locações foram feitas: no Palácio de Inverno (sede do governo czarista e atualmente o Museu Hermitage); no Palácio de Mármore (às margens do Rio Neva); na Fortaleza de Pedro e Paulo (presídio destinado aos revolucionários, dentre eles: Dostoievski, Máximo Gorki, Lyudmila Stal, Leon Trotsky, Alexander Ulyanov (irmão de Lênin); na Estação Ferroviária Vitebsky; Palácio Gatchina, Palácio Sheremetev, Palácio Yusupov (ao lado do Rio Moika, palácio onde ocorreu o assassinato de Rasputin); Museu de Artes Aplicadas de Stieglitz, dentre outros.

Sugestão:

Para contextualizar melhor o filme, assista a série: “Os últimos czares” (2019), também da Netflix.


Autor:

Francisco José Nunes

(Mestre em Ciências Sociais - PUC-SP; Graduado em Filosofia; Professor na Faculdade Paulista de Comunicação - FPAC; visitou São Petersburgo em novembro de 2017, durante as comemorações do Centenário da Revolução Russa)


P.S.: Esse artigo foi publicada originalmente no site "Construir Resistência", no dia 14/07/2021.