sábado, 9 de abril de 2022

Agosto: mês de desgoto e mês de luta pela vida

 

Obra: "O Grito" (1893), de Edvard Munch (reprodução)

Agosto: mês do desgosto e mês de luta pela vida


Por: Francisco José Nunes



No senso comum é costume dizer que “agosto é o mês do desgosto”! São atribuídas inúmeras razões para justificar esta sentença. Na Idade Antiga diziam que um grande dragão sobrevoava, em agosto, a cidade de Roma soltando fogo pelas ventas; que o dia 24 de agosto seria o “Dia do Diabo” e que neste dia as portas do inferno estariam abertas.


Em Portugal, durante o período das “grandes navegações” não era aconselhável marcar casamento em agosto, porque nesse mês saia a maior parte das caravelas e, por consequência, ocorreriam as separações e até a viuvez. Daí o famoso dito popular: “casamento em agosto, casamento de desgosto”.


O trágico massacre da “Noite de São Bartolomeu” foi no dia 24 de agosto de 1572, quando os Católicos assassinaram milhares de Protestantes na França. Também foi no mês de agosto de 1945 que os EUA atiraram as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, nos dias 6 e 9, respectivamente.


No Brasil, o Presidente Getúlio Vargas se matou no dia 24 de agosto de 1954; o Presidente Jânio Quadros renunciou à presidência no dia 25 de agosto de 1961 e no dia 31 de agosto ocorreu o Golpe de 2016, culminando com o afastamento da Presidenta Dilma Rousseff.


Evidentemente, muitos acontecimentos positivos ocorreram no mês de agosto, ao longo dos séculos. Mas a cultura popular enfatiza os aspectos sombrios. 


Tudo indica que os principais desgostos do mês de agosto de 2021 serão proporcionados pelos movimentos negacionistas e anticientificistas. Movimentos que estavam em crescimento antes da pandemia do coronavírus e permanecem em franco crescimento. Segundo o professor Christian Dunker (USP), o negacionismo costuma se manifestar principalmente de três maneiras: a) como uma criança, que diante daquilo que desagrada ou causa medo, fecha os olhos acreditando que esta atitude afastará o perigo; b) como fanatismo, quando a pessoa negacionista é manipulada por grupos políticos de extrema-direita, chegando a participar de ações públicas contra medidas sanitárias; c) como multidão, isto é, desrespeitando as regras sanitárias, se incorpora à maioria das pessoas, acreditando que a negação coletiva da pandemia trará de volta o “novo normal”.


Já é sabido que a vacina não é remédio. Vacina é um recurso que faz parte de um Plano de Imunização e que pelo menos 80% da população precisa ser vacinada, dentro do prazo correto, para que tenha sucesso. Pelo andar da carruagem, tudo indica que não atingiremos essa taxa. Seja porque o atual governo faz uma campanha pesada contra a vacina, bem como porque muitas pessoas se negam a tomar a vacina.


O comportamento antivacina e anti-medidas sanitárias causou o surgimento de inúmeras variantes do coronavírus. Estamos convivendo com as variantes: Gama, Delta, Alfa e Beta. Cada uma mais nefasta do que a outra. Lamentavelmente, grande parte da população está sendo seduzida pelo discurso do “novo normal”. Baseado na precária campanha de vacinação, explorando o anseio das pessoas por desejarem voltar à “vida normal”. Esse comportamento cria constrangimento nas pessoas que ainda insistem em usar máscara (no padrão correto), usar óculos, seguir os protocolos de segurança sanitária (higiene das mãos, distanciamento social, calçados e roupas na entrada da casa etc.). A vacinação está desencadeando um movimento de “liberô geral”. Isto é, depois de vacinada a pessoa pode voltar à sua “vida normal”. 


Esta situação complexa está causando sofrimento em muitas pessoas, porque ficam com dificuldades para decidir como agir. Sem dúvida, a primeira decisão é continuar obedecendo as normas de segurança sanitária, seguir na luta em defesa da ciência e do bom senso! No que diz respeito às relações humanas o drama é enorme, porque grande parte das pessoas negacionistas estão muito próximas. São parentes, vizinhos, amigos, colegas de trabalho, da escola e da igreja.


Precisamos admitir que, caso não ocorra uma revolução ecossocialista, teremos que conviver neste ambiente pandêmico por muito tempo. Isso significa, inclusive, admitir que estaremos constantemente ameaçados pela morte em grande intensidade. Isso altera muito a nossa visão de mundo e os nossos critérios de relacionamento.


Tudo indica que o grande desgosto deste mês de agosto serão as consequências das novas variantes do coronavírus, que deixarão um enorme rastro de mortos e sequelados. Percebe-se que o lema predominante ao longo da pandemia - “foda-se” - tem agora a sua versão macabra: “a vida não vale nada”. A busca pelo “novo normal” não tem motivação econômica (porque todas as decisões de “política econômica” tomadas antes e durante a pandemia, foram para destruir empregos e destruir as condições minimamente humanas para trabalhar); a busca pelo “novo normal” não tem motivação política (porque a maioria das pessoas adotou uma postura omissa, permitindo que os fascistas e o neoliberais assumissem a condução da política); a busca pelo “novo normal” não tem motivação social (porque o que prevaleceu durante a pandemia foi o egoísmo e os comportamentos anti-sociais); a busca pelo “novo normal” não tem motivação cultural (porque o processo de desmonte da cultura e desvalorização dos trabalhadores e trabalhadoras da cultura continua em marcha - e incêndios - acelerada); a busca pelo “novo normal”, sequer tem motivação religiosa (porque as grandes religiões adotaram a “teologia sacrificial”, sinalizam que as mortes e doenças são para expiar os pecados; na verdade, tratam-se de práticas idolátricas, que oferecem o sacrifício de vidas humanas para os ídolos).


O mês de agosto de 2021 está em aberto, cabe a nós enfrentarmos as causas dos desgostos e proporcionarmos - para nós e para a sociedade - novos gostos e novos sabores!



Autor:

Francisco José Nunes

Mestre em Ciências Sociais - PUC-SP; Graduado em Filosofia; Professor na Faculdade Paulista de Comunicação - FPAC.


P.S.: Este artigo foi publicado originalmente no site "Construir Resistência", no dia 18 de agosto de 2021.


sexta-feira, 8 de abril de 2022

Quem se interessa pela idosa da Van?

 


Quem se interessa pela idosa da van?

 

Por: Francisco José Nunes

 

          O filme “A Senhora da Van” (2015) aborda a vida de uma homeless inglesa, de maneira complexa, dramática e com a acidez típica do humor britânico. A história é baseada em fatos reais, com um toque de “realismo mágico”, ao estilo Gabriel García Marquez.

 

          Trata-se da história de Mary Shepherd (Maggie Smith), uma idosa que nos anos 1970 estaciona sua van no bairro Camden Town, em Londres. Ela mora nessa van, não tem bons hábitos de higiene e acumula sacolas plásticas. Hostilizada pelos habitantes do bairro, ela é proibida de estacionar sua van na rua. O único morador que a tolera é Alan Bennett (Alex Jennings), que permite que ela use o banheiro de sua casa e autoriza que ela estacione sua van “provisoriamente” na sua vaga de garagem. Mas ela acaba ficando durante 15 anos.

 

Miss Shepherd é uma pessoa complexa, no sentido pleno dessa palavra. É misteriosa, não se abre com ninguém; é seguidora do catolicismo conservador; faz declarações homofóbicas e anti-comunistas; e, tem um constante complexo de perseguição. Some-se a isso os problemas comuns que atingem as pessoas idosas: dificuldades na visão, oscilação entre demência e lucidez, problemas intestinais, entre outros. 

 

O filme é baseado na vida de Margaret Fairchild, uma homeless, que falava um inglês impecável, sabia tocar piano e falava francês fluentemente. Nos anos 1970, ela estacionou sua van na Rua Gloucester Crescent, no Bairro Camden Town, um bairro de classe média londrino. Próximo à casa de Alan Bennett, um escritor de peças de teatro. Após ceder a sua vaga de garagem, para que ela estacionasse a sua van, ela ficou por 15 anos, até a sua morte no dia 28 de abril de 1989, aos 78 anos.

 

Somente após a morte da Sra. Fairchild é que Alan Bennett ficou sabendo que ela, na juventude, estudou piano com o maestro Alfred Cortot. Nessa época optou por ingressar num convento de freiras. Entretanto, no convento, foi proibida de continuar tocando piano. Durante a Segunda Guerra Mundial trabalhou como motorista de ambulância. Depois da Guerra foi morar com a sua mãe. Passou a ter problemas de saúde mental, foi internada em clínica psiquiátrica e, depois de inúmeras fugas, recebeu alta. Envolveu-se em um acidente de trânsito e passou a viver dentro da sua van. 

 

No filme, a Sra. Shepherd é atendida por duas Assistentes Sociais, refletindo a importância dessas profissionais e a complexidade no atendimento das pessoas em situação de rua, especialmente as pessoas idosas.

 

É impossível assistir a esse filme e não se lembrar do Padre Júlio Lancellotti, de todos os profissionais e voluntários que atuam na atenção às pessoas em situação de rua, em São Paulo.

 

O filme gira em torno da brilhante atriz Maggie Smith, com 81 anos, quando fez a gravação. Atualmente está com 86 anos. Ela já ganhou dois Oscar, três Globos de Ouro e 46 prêmios. Ficou muito popular quando participou nos filmes da saga Harry Potter, com os papéis de Minerva McGonagall, vice-diretora de Hogwarts, professora de transfiguração e chefe da casa Grifinória. 

 

O filme “A Senhora da Van” é muito oportuno para esses tempos sombrios que estamos vivendo. Porque trata o drama das pessoas em situação de rua com equilíbrio e doçura. Principalmente por chamar a atenção para o fato de desconhecermos as histórias de vida dessas pessoas.

 

Serviço:

Filme: “A Senhora da Van” (2015)

Direção: Nicholas Hytner

Roteiro: Alan Bennett

Plataforma: Netflix

 

Autor:

Francisco José Nunes

Mestre em Ciências Sociais - PUC-SP; Graduado em Filosofia; Professor na Faculdade Paulista de Comunicação - FPAC. 

 

P.S.: Esta resenha foi publicada originalmente no site "Construir Resistência", no dia 19 de agosto de 2021.


quinta-feira, 7 de abril de 2022

Sobre o editorial da Folha "Ensaio de ditador" (06/08/2021)

 

Avenida Paulista, vista do Mirante do Sesc 
(Foto: Francisco José Nunes)


Sobre o editorial da Folha “Ensaio de ditador” (06/08/2021)


Por: Francisco José Nunes



Quando a Folha diz que a “Inação de PGR e Congresso põe a democracia em risco”. É importante frisar que a democracia acabou quando a Folha e os demais grupos de comunicação apoiaram a “Lava Jato”, que culminou no Golpe de 2016 (“com o STF, com tudo”). Que a Folha proibiu os seus jornalistas de escrever que o candidato à Presidência era um “político de extrema direita”.


É impressionante como o Grupo Folha gosta de passar vergonha em público”! Quer dizer que apenas 30 anos depois de ter entrado na vida pública é que a Folha descobriu que o atual presidente é um “Ensaio de ditador”. Aquele que tem por herói o torturador e assassino Brilhante Ustra!


A Folha está equivocada ao afirmar que há “ausência de governo”. Muito pelo contrário! O governo está cumprindo religiosamente o que prometeu na campanha: desmonte da Previdência Pública, desmonte da Legislação Trabalhista, desmonte do Funcionalismo Público, desmonte do Ensino Público, desmonte do SUS, desmonte da Ciência e Tecnologia, desmonte da Legislação Ambiental, autonomia total do Banco Central, venda “a preço de banana” do Patrimônio Público (Petrobrás, Eletrobrás, Correios etc), “bolsa banqueiros”, benefícios escandalosos para os militares, “liberô geral” para a compra de armas e munição (em benefício dos milicianos e dos “cidadãos de bem”). A lista é interminável!


A própria Folha denunciou o uso de “disparos em massa” de mensagens na internet durante as eleições de 2018 e ficou por isso mesmo. Só esse crime já seria suficiente para anular a eleição da chapa. Não bastasse a prisão ilegal do candidato que estava em primeiro lugar durante a campanha.


O cinismo da Folha é tão grande que, ao relacionar alguns dos problemas econômicos: alta no desemprego, aumento nos preços da energia, dos produtos alimentícios, dos combustíveis, dos aluguéis, fuga de investidores, desvalorização do real, agressão aos parceiros comerciais etc. A Folha não reconhece que abraçou e se beneficia da agenda neoliberal capitaneada pelo Ministro Paulo Guedes.


A Folha reclama a respeito da falta de exame dos mais de 100 pedidos de impeachment, cobra de Arthur Lira (PP-AL), mas omite o papel nefasto de Rodrigo Maia (ex-DEM-RJ).


A Folha cinicamente apela para as instituições, para que impeçam o presidente de aprofundar o golpe e de acabar com essa fachada de democracia. Mas a Folha não diz que esse estado de coisas conta com o apoio de instituições poderosas: os banqueiros, os empresários, o agronegócio, os magnatas da comunicação, a maioria dos católicos, a maioria dos evangélicos, os militares, o Judiciário, o CFM, a OAB. A lista é enorme.


Não se pode esperar nada, em benefício da democracia, que venha de um jornal que apoiou o Golpe de 1964, forneceu caminhonetes para os grupos da repressão, afirmou em editorial que foi apenas uma “ditabranda”, surfou na “Campanha das Diretas Já”, mas entregou a “eleições indiretas”.


Não assino e nem leio a Folha diariamente há muito tempo. Li esse editorial por recomendação de alguns amigos. Lamentavelmente muitos amigos continuam assinando a Folha e o UOL. Muitos continuam escrevendo e dando entrevista para estes veículos. É preciso mais do que nunca deslegitimar esses “latifúndios da comunicação”. É preciso fortalecer a imprensa independente e de esquerda. É preciso combater o mito da “neutralidade da imprensa”.



Autor:

Francisco José Nunes

Mestre em Ciências Sociais - PUC-SP; Graduado em Filosofia; Professor na Faculdade Paulista de Comunicação - FPAC.


P.S.: Este artigo foi publicado originalmente no site "Construir Resistência", no dia 07 de agosto de 2021.


quarta-feira, 6 de abril de 2022

As Olimpíadas entre a pandemia e a bomba de Hiroshima e Nagasaki

 

(Foto: Divulgação/COI)

As Olimpíadas entre a pandemia e a bomba em Hiroshima e Nagasaki


Por: Francisco José Nunes


A cerimônia de encerramento das Olimpíadas de Tóquio, prevista para o dia 8 de agosto, acontecerá dois dias após a data da explosão da bomba atômica em Hiroshima e um dia antes da data da explosão da bomba atômica na cidade de Nagasaki. São 76 anos deste acontecimento trágico.


O Presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI) Thomas Bach visitou a cidade de Hiroshima no dia 16 de julho de 2021, sob protestos de lideranças locais e de movimentos pacifistas. O presidente do COI alegou que sua visita era um gesto a favor de “um mundo pacífico e sem armas nucleares”. Entretanto, uma das lideranças locais afirmou que, em plena pandemia: “Manter as Olimpíadas na situação atual, onde muitas vidas são perdidas, vai contra o espírito dos jogos, que deveriam ser um festival de paz”, disse Kunihiko Sakuma, líder de um grupo de apoio aos “hibakusha” (sobreviventes dos bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki).


Até o dia 11 de julho de 2021 o Japão havia registrado 14.943 pessoas mortas pela COVID-19, com um total de 828 mil infectados. O número de pessoas vacinadas até julho de 2021 era de apenas 18% da população. Pesquisas realizadas até julho, registraram uma taxa de 60% a 80% dos japoneses contrários à realização das Olimpíadas.


Um episódio lamentável relacionado a essa olimpíada, ocorreu após a derrota do surfista brasileiro Gabriel Medina, para o surfista japonês Kanoa Igarashi. Muitos torcedores brasileiros, alegando que os juízes beneficiaram o atleta japonês em detrimento do atleta brasileiro, disseram que a bomba atômica em “Hiroshima e Nagasaki foi pouco”. Essa ofensa entrou para o TT do Twitter. Mas uma outra parte dos torcedores manifestou-se contrária ao uso dessa expressão.


Vamos recordar o significado histórico das bombas

atômicas em Hiroshima e Nagasaki.


No dia 6 de agosto de 1945 a cidade japonesa de Hiroshima foi atingida pela primeira bomba atômica da história da humanidade. Eram 8h15 da manhã (hora local) quando o Boeing B-29, pilotado por Paul Tibbets, atirou a bomba, resultando na morte de cerca de 140 mil pessoas.


O avião foi batizado com o nome de “Enola Gay”, nome da mãe do piloto. Após afastar-se do local da explosão, o copiloto Robert Lewis observou o tamanho da tragédia e indagou: “Deus, o que fizemos”?


Esta bomba não foi suficiente para obrigar o Imperador Hirohito a assinar o acordo de rendição. No dia 9 de agosto, às 11h02, os EUA atiraram a segunda bomba atômica, desta vez na cidade de Nagasaki, resultando na morte de cerca de 70 mil pessoas.


A bomba atômica, além dos efeitos materiais, também resultou em inúmeros efeitos simbólicos. Dentre eles, o nascimento da “Pós-Modernidade”. Esta “condição pós-moderna” que os filósofos identificaram ao longo da segunda metade do Século XX.


A eclosão da Primeira e da Segunda Guerra Mundial , culminando com a explosão da bomba atômica, colocou em xeque os ideais da Modernidade. Caracterizada pela supervalorização da Razão, da democracia burguesa e do desenvolvimento tecnológico. A morte de milhões de pessoas e a destruição de vários países, principalmente na Europa, evidenciou a “crise da Modernidade”. Algumas das questões colocadas foram: “por que a Razão é incapaz de deter a barbárie?”; “Por que o fascismo e o nazismo nasceram na Europa?”; “Este modelo de “Civilização Ocidental Cristã” deve ser a referência para a humanidade?”.


A bomba atômica desencadeou uma série de mudanças na maior parte da humanidade. Dentre elas destacamos duas: o neo-individualismo e a despolitização. Diferentemente do individualismo da modernidade (indivíduo livre e autônomo, superando o coletivismo da Idade Média e se apropriando das conquistas da Revolução Francesa), o neo-individualismo pós-moderno é caracterizado pelo descompromisso, pelo “não tô nem aí” e mais recentemente pela expressão popular: “foda-se”.


São características desse neo-individualismo: o narcisismo, o hedonismo e o conformismo. O narcisismo centrado no culto ao próprio corpo, atingindo uma espécie de “corpolatria”. Caracterizado pela grande ocupação de tempo na academia de educação física, exercitando os músculos e, nos salões de beleza, cuidando da estética pessoal.


O hedonismo ocupa o principal objetivo na vida da pessoa; adota-se o lema “Carpe diem”, isto é, aproveite o momento. Só faça coisas que proporcionem prazer e, de preferência, prazer imediato.


O conformismo, porque busca adaptar-se às circunstâncias, sem desejo de transformar a sociedade.


Vinculado a este comportamento, emerge a despolitização. O “sujeito pós-moderno” não participa em eleições e nem em outras formas de organização que impliquem em responsabilidades sociais e políticas; dá as costas para as grandes causas, tais como: a luta pela paz, o combate à fome, a luta contra as desigualdades sociais e econômicas.


Após 76 anos das bombas atômicas atiradas no Japão e em plena pandemia do COVID-19, somos desafiados a pensar sobre o sentido da existência humana. De acordo com os filósofos e filósofas existencialistas: o ser humano é “lançado ao mundo”, como um bebê quando nasce. É um ser imperfeito, inacabado e aberto para se fazer e refazer. Mas a autoconstrução não se faz por si só, ela também depende das circunstâncias históricas. E, na medida em que o ser humano constrói a sua própria existência, ele também deve lutar para que as circunstâncias sociais mudem para melhor.


Os filósofos e filósofas existencialistas alertam para o fato de que a existência não consiste numa longa jornada marcada pelo crescimento, pelo sucesso e pelo progresso. Também faz parte da existência as doenças, as guerras, as injustiças, o envelhecimento e a morte. Portanto, é indispensável, a luta constante contra a exploração social, o enfrentamento da angústia interior e de todo tipo de sofrimento humano.


Em suma, existir implica na relação da pessoa consigo mesma, com as outras pessoas, com a natureza, com os animais e com as coisas. Um enfrentamento constante, mas libertador e parte fundamental na construção de uma sociedade onde caibam todos e todas. Uma sociedade que valorize a vida e a vida em plenitude.


Sugestões:


1) O estudo sobre a Pós-Modernidade é vasto. Recomendo para introdução o livro: “O que é pós-moderno”, do escritor Jair Ferreira dos Santos, da Coleção Primeiros Passos, da Editora Brasiliense.


2) Sobre o Existencialismo, corrente filosófica importantíssima no Século XX, tem uma quantidade enorme de livros, filmes, documentários, peças de teatro etc. Recomendo como introdução o livro: “O Existencialismo é um Humanismo”, de Jean-Paul Sartre.


3) Sobre a Bomba de Hiroshima, o poeta e diplomata Vinícius de Moraes não ficou indiferente! Em 1954 ele publicou o poema “Rosa de Hiroshima”, que foi musicado em 1973 por Gerson Conrad, integrante da “Banda Secos e Molhados”. Esta música foi gravada por Ney Matogrosso e entrou para a lista das 100 melhores músicas brasileiras, segundo a Revista Rolling Stone.

Ney Matogrosso - Rosa de Hiroshima

https://www.youtube.com/watch?v=sR1gC4GsFGM


Autor:

Francisco José Nunes

Mestre em Ciências Sociais - PUC-SP; Graduado em Filosofia; Professor na Faculdade Paulista de Comunicação - FPAC.


P.S.: Este artigo foi publicado originalmente no site “Construir Resistência”, no dia 06/08/2021.


terça-feira, 5 de abril de 2022

Elysium, um condomínio no céu

 


Elysium, um condomínio no céu

Por: Francisco José Nunes

 

As recentes viagens ao espaço, realizadas pelos homens mais ricos do planeta, desencadeou o chamado “turismo espacial”. Dentre eles estão: Elon Musk (Tesla e SpaceX), Jeff Bezos (Amazon e Blue Origin) e Richard Branson (Virgin Record e Virgin Galactic).

Mas o objetivo desses empresários não é apenas faturar com o “turismo espacial”. Eles têm muitos planos extraterrestres! O empresário Elon Musk afirmou que pretende colonizar o planeta Marte até 2050. Ele pretende levar para Marte cerca de 1 milhão de terráqueos. Para criar as condições de habitabilidade ele já cogitou, inclusive, a explosão de uma bomba atômica com o objetivo de criar água e alterar o clima daquele planeta.

Considerando o avançado grau de devastação do meio ambiente no planeta Terra, tudo indica que os ricaços pretendem construir um condomínio de altíssimo padrão fora do planeta Terra.

Sempre foi um desejo da maioria dos seres humanos viver num lugar paradisíaco.

Essas circunstâncias fazem lembrar do filme “Elysium”, que projeta este lugar na órbita do planeta Terra, por volta do ano 2159. Trata-se de um enorme condomínio, equipado com as mais avançadas tecnologias e com um equilíbrio ecológico perfeito.

No planeta Terra vive uma imensidão de miseráveis, em condições precárias, com a natureza devastada e controlada por robôs-policiais.

A trama do filme se desenvolve em função da necessidade de duas pessoas que precisam desesperadamente de um tipo de tratamento médico que só está disponível em Elysium. Mas existe uma Lei Anti-imigração, que impede o acesso da “ralé” que vive na Terra, aos recursos avançados de medicina em Elysium.

Uma dessas pessoas é Max da Costa, operário de uma fábrica de robôs, chamada “Armandyne”; ocorreu um acidente no local de trabalho e Max foi contaminado. Após o diagnóstico feito por um robô-enfermeiro, dizendo que Max só teria mais cinco dias de vida, bateu o desespero. Ele precisava ir para Elysium, passar por uma máquina que faz reprogramação genética, com capacidade de curar todo tipo de doença.

Outra pessoa que precisava de tratamento é Matilda, filha de Frey, uma enfermeira e que foi o primeiro amor de Max. Ambos procuram Spider Ramos, um coiote, especialista em tecnologia e proprietário de uma nave pirata, capaz de invadir Elysium.

Neste ínterim, Rhodes Delacourt, a Secretária de Segurança de Elysium, está planejando um Golpe de Estado, para derrubar o Presidente de Elysium, o indiano Patel. Ela trama o golpe com John Carlyle, o proprietário da fábrica de robôs Armadyne, que fornece robôs para Elysium e para o planeta Terra. Eles usam Kruger, um mercenário e espião infiltrado; e mobilizam um bando para dar o golpe.

O Golpe de Estado consiste em roubar os dados orgânicos-tecnológicos capazes de reiniciar Elysium, fazendo a transferência desses dados para o cérebro de Max. Entretanto, o desejo de Max não é participar do golpe, mas implantar um regime igualitário entre Elysium e o planeta Terra. De tal forma que os habitantes da Terra tenham acesso às conquistas científicas exclusivas de Elysium.

No filme os habitantes da Terra falam espanhol e inglês. Porque o muro que separava os EUA do México não fazia mais sentido. Ao passo que a língua oficial de Elysium é o francês, numa clara referência à marca de elitismo e aristocracia, vinculadas à cultura francesa.

O filme suscita uma série de provocações sobre a necessidade de discutirmos os rumos do desenvolvimento científico no planeta Terra atualmente, tais como: a Inteligência Artificial, o Projeto Genoma, Robótica, as Hiper Tecnologias, a Nanotecnologia, a Biotecnologia, o Aquecimento Global e a Neurociência.

Todo o desenvolvimento que ocorre nestas áreas está delimitado por um aparthaid social e espacial. Neste início de Século XXI, o grande condomínio Elysium ainda não está localizado na órbita da Terra, mas está situado na “lógica do condomínio” de nossa sociedade. Em espaços inacessíveis para a maior parte da humanidade.

Resta saber se surgirão alguns “coiotes sociais”, especialistas em tecnologias, semelhantes ao Spider; e alguns “predestinados”, semelhantes a Max da Costa, para se incorporarem na luta por uma sociedade mais fraterna, humana e igualitária.

No filme o papel de Frey é desempenhado pela atriz brasileira Alice Braga e o papel de Spider é desempenhado pelo ator brasileiro Wagner Moura. Quem faz o papel de Max da Costa é o ator Matt Damon. Especialmente estes três atores têm um grande envolvimento com causas sociais e políticas. Aspectos importantíssimos para os dias de hoje.

A palavra Elysium significa “a morada dos bem-aventurados”, também conhecida por Campos Elísios. 

O filósofo alemão Nietzsche dizia que somos hiperbóreos, isto é, assim como os gregos antigos, acreditamos na existência de uma terra com fartura e com uma eterna aurora boreal, para onde os deuses nos levarão e viveremos eternamente. Pelo visto este lugar está em processo acelerado de construção, faltando apenas garantir a vida eterna. Mas esta é uma promessa que se pretende realizar antes do final do Século XXI!

Serviço:

Filme: Elysium (2013) - 1h49 min

Direção: Neill Blomkamp

Plataforma: Amazon Prime Video


Francisco José Nunes

Mestre em Ciências Sociais - PUC-SP; Graduado em Filosofia; Professor na Faculdade Paulista de Comunicação - FPAC. 


P.S.: Esta resenha foi publicada originalmente no site:

"Construir Resistência", no dia 29 de julho de 2021.



segunda-feira, 4 de abril de 2022

Utopia e distopia na minissérie Years and Years

 


Utopia e distopia na minissérie Years and Years

 Por: Francisco José Nunes.

 

Análise sem spoiler!

 

          A minissérie Years and Years (BBC/HBO - 2019), criada por Russell T. Davies causou muito impacto porque, segundo muitos comentários, pegou pesado com o uso da distopia.

 

          Os seis episódios da minissérie acompanham a vida da família Lyon por 15 anos. Tudo começa em uma noite crucial, em 2019. Os principais membros da família são: Muriel Deacon (Anne Reid) é a matriarca da família, uma avó devotada, faz críticas perspicazes sobre o cotidiano; Stephen Lyons (Rory Kinnear) é o filho mais velho, mora numa linda casa em Barnsbury (Londres), é casado com Celeste, pai de duas garotas (Bethany e Ruby), tem uma ótima condição financeira, é calmo, sorridente e comporta-se como o pacificador; Celeste Bisme-Lyons (T’Nia Miller) é casada com Stephen, é contabilista, moderna, inteligente, estilosa, mãe de Bethany e de Ruby.

 

          Também fazem parte da família Lyons: Daniel Lyons (Russell Tovey) o terceiro filho, trabalha no Departamento de  Habitação da Prefeitura de Manchester, é casado com Ralph (Dino Fetscher) que é professor do ensino fundamental; Rosie Lyons (Ruth Madeley) é a mais jovem das Lyons, é cadeirante, nasceu com espinha bífida (defeito congênito na medula espinhal), mãe solteira de Lee e Lincoln, de dois pais diferentes, trabalha como chef de cozinha numa escola local, é muito divertida; Edith Lyons (Jessica Hynes) é a segunda filha, é ativista e internacionalista da causa ambiental, viajou bastante pelo mundo; Bethany Bisme-Lyons (Lydia West) é a filha mais velha de Stephen e Celeste, é uma aluna brilhante, tímida, obcecada por transumanismo, implantou um telefone na mão e pretende fazer upload da sua consciência para a nuvem.

 

          A personagem que não pertence à família Lyons, mas que influencia muito a vida familiar e a sociedade britânica é Vivienne Rook (Emma Thompson). Ela é uma empresária que entra nas disputas políticas como uma representante da extrema-direita. Faz declarações absurdas, mas que com o tempo vão sendo normalizadas. Através de várias eleições vai galgando o poder até se transformar numa governante poderosa e fascista.

 

          Para refletir sobre as questões colocadas pela série é inevitável mencionar o governo da Primeira-Ministra Margaret Thatcher e a sua herança maldita. Ela exerceu o poder no Reino Unido entre 1979 e 1990. Combateu o chamado “Estado de Bem Estar Social”, política econômica de Estado, implantada no pós-guerra, que buscava garantir o acesso às necessidades básicas para todas as pessoas. Por outro lado, ela impôs a política econômica do Liberalismo, reduzindo a ação do Estado nas áreas estratégicas da sociedade (saúde, educação, energia, transporte, abastecimento, moradia). Introduzindo as famosas privatizações. A sua filosofia política está bem resumida nesta declaração: “Não existe isso que chamam de sociedade. Existem indivíduos, homens e mulheres, e existem famílias. E o Governo só pode agir através das pessoas, mas são as pessoas que devem zelar por seu próprio interesse. Todos devemos cuidar de nós mesmos, e depois, também, de nossos vizinhos”. Esta declaração, infelizmente, soou como música para muitos ouvidos. Ela estimula absurdamente o individualismo. Na prática, Thatcher atacou os sindicatos, os partidos políticos e todas as formas de organização social. Isolar as pessoas é a melhor forma para dominá-las.

 

          Ao assumir o poder, Thatcher pegou o Reino Unido com uma inflação de 25% e uma taxa de desemprego de 17%. Mas tirou proveito desta situação para implantar as malfadadas “políticas de austeridade”. Na condição de principal representante do conservadorismo, suas bandeiras eram “a família e a segurança”. Sua grande batalha inicial foi contra os sindicatos, principalmente o sindicato dos mineiros. Que ela venceu na base da pressão econômica e da repressão policial. Simultaneamente ela desqualificou os partidos políticos, principalmente o Partido Trabalhista. 

 

          No plano social, Thatcher: interrompeu o programa de moradias populares, isso prejudicou muito a juventude, porque os jovens ficaram sem opções para sair da casa de seus pais; fez inúmeras terceirizações no sistema de saúde NHS (o SUS britânico); apoiou a famigerada lei conhecida por “Seção 28”, que proibia as escolas de “promover o ensino da aceitabilidade da homossexualidade”, essa lei vigorou entre 1988 e 2003; dentre outras malvadezas.

 

          Após 11 anos no poder o saldo foi o seguinte: para uma líder política que “defendia a família e a segurança”, a taxa de divórcio aumentou 11%; o número de roubos aumentou 53% e de crimes em geral aumentou 34%; o número de famílias monoparentais aumentou acentuadamente. Provavelmente, a causa dessa hecatombe social encontra-se na política econômica adotada: que provocou desindustrialização; redução dos direitos trabalhistas e sociais; e, aumentou o abismo entre os mais ricos e os mais pobres.

 

          Este breve panorama do Governo Thatcher facilita a compreensão dos dilemas colocados pela série Years and Years. Não se trata de dizer que Vivienne Rook seja uma sósia de Margaret Thatcher, Vivi “herdou” o estado de terra arrasada deixado pelas políticas de Thatcher. Os políticos de direita, depois que fracassam, abrem caminho para o fascismo. Logo no primeiro episódio Vivienne diz: “Eu não entendo mais o mundo. Antes esquerda era esquerda, direita era direita, os EUA eram os EUA”. Essa tática dos políticos de extrema direita é típica. Criar confusão no sentido das definições. Mas, infelizmente, essa declaração tem grande aceitação popular. 

 

Considerando que a maioria das pessoas se recusa a assumir as responsabilidades necessárias para viver em sociedade. Isto é, para viver em sociedade é preciso: dedicação ao estudo dos problemas e das soluções propostas; participação nos debates e nas decisões; enfrentamento dos conflitos e da pressão dos mais poderosos. Infelizmente, a maioria das pessoas prefere ficar omissas, “neutras”, não querem “polarizar”. Resultado: a sociedade afunda, entra em decadência.

 

          A série Years and Years coloca um turbilhão de problemas para serem enfrentados: a devastação ambiental, o abismo entre ricos e pobres, a precarização das condições de trabalho, as crises econômicas, o negacionismo, o terraplanismo, a causa dos refugiados e imigrantes, a homofobia, a xenofobia, entre outras. Neste sentido, a série apresenta um mundo distópico. Entretanto, a própria série indaga: “Pode uma família comum mudar o mundo?”. É na tentativa de dar a resposta que a série termina. Isto é, buscando refazer a boa e velha utopia política, na luta por um mundo melhor.

 

          A disputa entre utopia e distopia foi muito acirrada no Século XX e continua agora no Século XXI. O termo utopia compreendido aqui enquanto desejo de uma sociedade ideal, perfeita. Neste caso, é inevitável citar o texto do cineasta argentino Fernando Birri: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.

 

          A distopia, por sua vez, significa “um país infeliz”, “um lugar doente, ruim, desfavorável”. Daí entendermos o sucesso atual das séries, filmes e livros distópicos. Depois da eleição do Trump a venda de livros sobre distopia aumentou muito. Porque as pessoas queriam entender o que estava acontecendo. Diante da falência da “democracia burguesa”, com todos os seus problemas, temos pela frente uma grande avenida para caminharmos rumo à construção de uma sociedade fraterna, solidária, participativa, equânime, ecológica e “perfeita”.

 

Autor:

Francisco José Nunes

Mestre em Ciências Sociais - PUC-SP; Graduado em Filosofia; Professor na Faculdade Paulista de Comunicação - FPAC. 

 

Para saber mais sobre o Governo Thatcher:

Artigo: “Não, Thatcher não salvou a economia”, Andrew Kersley

https://jacobin.com.br/2021/01/nao-thatcher-nao-salvou-a-economia/

 

P.S.: Este artigo foi publicado originalmente no site “Construir Resistência”, no dia 23/07/2021.