segunda-feira, 18 de abril de 2022

"Crime e Castigo", clássico da literatura no cinema russo

 

Filme: "Crime e Castigo" (1970)

“Crime e Castigo”, clássico da literatura no cinema russo


Por: Francisco José Nunes



O filme “Crime e Castigo” (1970), do diretor russo Lev Kulidzhanov é considerado a melhor adaptação, para o cinema, do livro “Crime e Castigo”(1866), do escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881).


O romance conta a história de um jovem chamado Rodion Romanovich Raskolnikov, de família pobre, que abandonou o curso de Direito e vive em São Petersburgo (capital da Rússia). A história gira em torno de um crime gravíssimo cometido pelo jovem Raskolnikov. Ele assassinou duas senhoras idosas, que eram irmãs. Uma delas é a Aliona Ivanovna, uma usurária (agiota), ranzinza e má. A outra é a Lisavieta, uma pessoa bondosa, inocente e caridosa.


A trama aborda os dilemas de Raskolnikov ao conviver com aquele crime, temendo ser descoberto e tendo pesadelos constantes. A genialidade de Dostoiévski faz um mescla entre os sofrimentos psicológicos vivenciados pelo assassino, com os sofrimentos sociais e econômicos, vivenciados por grande parte dos personagens. São pessoas que vivem em lugares insalubres, jovens prostituídas, pessoas famintas, desempregadas e alcoólatras. 


É importante lembrar que o escritor Dostoiévski foi condenado à morte por ter participado de um movimento que lutava pelo fim do “czarismo” e pelo fim da servidão na Rússia, teve a sua pena comutada para cumprir prisão na Sibéria. Ao todo, entre o período no presídio e no cumprimento de trabalho como soldado raso, ele ficou dez anos na Sibéria. Depois recebeu anistia e paulatinamente foi se reintegrando à sociedade russa e aos círculos intelectuais; entretanto, continuou sob censura e vigiado pela polícia secreta do “Czar”. Esse contexto político possibilita compreender as suas obras e o seu posicionamento, que era conservador. Impossibilitado de expressar abertamente suas ideias, manifestou-as de forma muito sofisticada, descrevendo as consequências de um regime autocrático.


O filme foi produzido pelo importante diretor russo Lev Kulidzhanov (1924-2002), que além de diretor de cinema, foi roteirista, professor no Instituto Gerasimov de Cinematografia, foi presidente do Sindicato dos Cinematógrafos de URSS (1965-1986), dirigiu doze filmes (entre 1954 e 1994) e recebeu diversos prêmios.


O filme foi rodado em São Petersburgo, com uma cuidadosa ambientação de época, um ótimo elenco, filmado em preto e branco, explorando muito bem os contraste de claro e escuro, combinando com os dilemas psicológicos do protagonista; as inúmeras cenas realizadas nos minúsculos apartamentos passam uma sensação de claustrofobia, o protagonista vaga pelas ruas e canais de São Petersburgo (conhecida como a “Veneza do Norte”), o filme tem uma ótima fotografia e uma ótima direção de arte. No elenco, o ator Georgy Taratorkin desempenha de maneira convincente o papel de Raskolnikov; a atriz Tatyana Bedova faz o ótimo papel de Sonya Marmeladova (a garota prostituída); Victoria Fyodorova faz o papel de Avdotya Romanovna (a irmã de Raskolnikov); entre outros ótimos atores e atrizes.


Por curiosidade, a palavra “Raskolnik” significa: cindido, cisão, cisma, atormentado. Portanto, o sobrenome Raskolnikov expressa muito bem a personalidade do protagonista. Outra curiosidade é que o filme está disponível gratuitamente no Youtube!


Neste mês de comemoração do “Bicentenário do Nascimento de Dostoiévski”, esse filme pode proporcionar um mergulho na obra do grande escritor russo e na cidade de São Petersburgo. Fiódor Dostoiévski nasceu no dia 11 de novembro de 1821.



Serviço

Filme: “Crime e Castigo”

Direção: Lev Kulidzhanov

Ano: 1970

Duração: 221 minutos (está dividido em duas partes)

Plataforma: Youtube (gratuito) 

Parte 1

https://www.youtube.com/watch?v=dHvOnIXuQDQ&ab_channel=Emil


Parte 2

https://www.youtube.com/watch?v=CxoDv7MFu3A&ab_channel=Emil



Autor:

Francisco José Nunes

Mestre em Ciências Sociais - PUC-SP; Graduado em Filosofia; Professor na Faculdade Paulista de Comunicação - FPAC.


P.S.: Este artigo foi publicado originalmente no site "Construir Resistência", no dia 06 de novembro de 2021.

Viva o Saci e o Raloim Brasileiro

 

Saci - Desenho de José Luiz Ohi

Viva o Saci e o Raloim Brasileiro


Por: Francisco José Nunes



Em tempos de neocolonização do Brasil é muito importante realizar a comemoração do “Dia do Saci”, no dia 31 de outubro. Não se trata de fazer uma oposição à festa das bruxas. Afinal, as bruxas são mulheres independentes que sempre foram perseguidas e, muitas delas, assassinadas pelo patriarcado.


A Festa do Saci é uma manifestação da cultura brasileira. O Saci é um símbolo da resistência popular. No passado ele foi um duende da mitologia do Povo Guarani, o Yaci. Com a chegada dos africanos escravizados no Brasil, o Saci ficou negro. Conta-se que o Saci foi aprisionado e acorrentado em uma das pernas, ficando diante de um dilema: permanecer com as duas pernas, mas continuar escravizado ou amputar uma das pernas e conquistar a liberdade. Ele escolheu a segunda opção e tornou-se um símbolo para as lutas de libertação de todos os povos: negros, indígenas, camponeses etc.


O “Manifesto do Saci” orienta a nossa luta:


“Um espectro ronda a indústria da cultura. Como já ocorrera durante a Primeira Guerra Mundial - quando os chamados ‘povos civilizados’ se matavam entre si nos campos da Europa, como lembra Monteiro Lobato em seu Inquérito, escrito em 1917 -, o espectro do Saci voltou para dar nó na crina das potências que invadem os outros países com uma ‘indústria cultural’ predadora e orquestrada.

O Saci é reconhecido como uma força de resistência cultural a essa invasão. Na figura simpática e travessa do insigne perneta, esbarram hoje, impotentes, os x-men, os pokémon, os raloins e os jogos de guerra, como esbarravam ontem patos assexuados e ratos com orelhas de canguru.” (Manifesto do Saci. São Luiz do Paraitinga, 31 de outubro de 2003)


Neste momento em que o Brasil passa por um forte processo de neocolonização: entregando quase todas as suas riquezas naturais para as empresas estrangeiras e para vários brasileiros que levam seus lucros para “esconderijos fiscais” (offshores); reprimarizando sua economia (minérios, soja, carne, laranja); saindo dos fóruns de relações internacionais multilaterais; reduzindo drasticamente os investimentos em educação, ciência e tecnologia; submetendo-se aos ditames do “irmão do norte”. Valorizar, portanto, a mitologia do Saci, que está presente em todas as regiões do Brasil, é fundamental para a luta contra o neofascismo e a luta “por uma terra sem males”.


Também no dia 31 de outubro de 2003 foi publicado o “Manifesto Antropófago Revisitado”:


“Só o saci nos une. Sacialmente. Etnicamente. Culturalmente. No ano 449 da deglutição do Bispo Sardinha em Piratininga, e 75 anos após o lançamento do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, os saciólogos desta terra vão, aos pulos, convergindo em torno da única lei justa do mundo globalizado. O Saci resgata nossa identidade, nossas raízes, o xis da questão Tupi. Contra todas as catequeses do Império só nos interessa o que não é deles. A lei do Saci.

Estamos fatigados de todos os colonialismos travestidos de drama roliudiano. O cinema americano devorando corações e mentes. Demente. No país onde dá status ter casa em Maiami e comprar em sales com 20% off. Estacionar no valet parking e pedir comida delivery.”


É tempo de construir resistência!


“Sacis de todo o Brasil, unamo-nos”!


Segue a sugestão do ótimo documentário “Somos todos Sacys” e o sítio da “Sociedade dos Observadores de Saci”.


Viva o Saci e todos os seus companheiros e companheiras: Boitatá, Iara, Curupira, Mapinguari!


Serviço:


Documentário: “Somos todos Sacys” (2005) - 55 minutos

Direção: Sylvio Rocha e Rudá Andrade

https://www.youtube.com/watch?v=_sSEas8eWyE&t=4s&ab_channel=OcupaSacy


Sítio da “Sociedade dos Observadores de Saci” - SOSACI

https://www.sosaci.org.br/



Autor:

Francisco José Nunes

Mestre em Ciências Sociais - PUC-SP; Graduado em Filosofia; Professor na Faculdade Paulista de Comunicação - FPAC.


P.S.: Este artigo foi publicado originalmente no site "Construir Resistência", no dia 29 de outubro de 2021.


Este artigo foi republicado pelo site "Bemblogado", no dia 31 de outubro de 2021.


Colômbia, campeã em assassinato de defensores dos direitos humanos

 

Filme "A ausência que seremos" 
Foto: Divulgação (Netflix)

Colômbia, campeã em assassinato de defensores dos Direitos Humanos


Por: Francisco José Nunes



O filme “A ausência que seremos” (“El olvido que seremos”), lançado no dia 22 de setembro de 2021, é uma demonstração de ternura sendo massacrada pela prepotência. Trata-se da história do médico sanitarista e professor universitário Héctor Abad Gómez (1921-1987), contada por seu filho, o escritor Héctor Abad Faciolince. 


É uma história contada a partir do olhar de uma criança, o futuro escritor Faciolince. O médico Héctor é casado com a sobrinha do Arcebispo de Medellín, Cecília Faciolince. O casal tem um filho e cinco filhas; formam uma típica família de classe média; e, tem uma freira conservadora que trabalha como preceptora para a família.


O Dr. Héctor Abad Gómez é também um político liberal, filiado a um partido político de centro, mas tem algumas posições progressistas. Na condição de médico sanitarista, defende nas suas aulas, em seus artigos para a imprensa e em suas visitas aos bairros marginalizados, melhorias no saneamento básico na cidade de Medellín. 


Entretanto, defender os direitos humanos na Colômbia “é coisa de comunista”! Então, o Dr. Héctor foi afastado de suas aulas na universidade e obrigado a trabalhar fora da Colômbia. Ao retornar, candidatou-se a prefeito de Medellín, mas em seguida foi assassinado.


Toda essa história foi contada por seu filho. A narrativa coloca em evidência o contraste entre os gestos de ternura no ambiente familiar, com destaque para a relação entre pai e filho, mas cercado por uma sociedade violenta e extremamente injusta, social e economicamente.


O diretor do filme, Fernando Trueba, adota um recurso interessante: filma a época antiga em cores, para caracterizar um tempo feliz e filma em preto e branco o tempo mais contemporâneo, para reforçar os momentos trágicos.


Assistir a esse filme nos coloca diante da tragédia atual vivida pela Colômbia. Em 2020, foram registrados o assassinato de 199 defensores dos Direitos Humanos. Entre meados de 2016, quando foi assinado o “Acordo de Paz” na Colômbia até a metade de 2019, foram assassinados 324 defensores dos Direitos Humanos. 


Dentre as pessoas assassinadas, em sua maioria são: lideranças comunitárias, lideranças indígenas e negras, lideranças camponesas e defensores do meio ambiente. De acordo com dados coletados pela ONU, a Colômbia é o país latino-americano que mais assassina defensores de Direitos Humanos e está entre os países em que as liberdades individuais estão mais ameaçadas. A Colômbia é um país apresentado, pelos EUA, como um modelo para a América Latina! O uso da política de “Guerra às Drogas” financia os grupos paramilitares, principais responsáveis pelos assassinatos. Cerca de 95% dos assassinatos não são investigados e nem levados a julgamento. A presença militar dos EUA na Colômbia é ostensiva e a presença de grupos mercenários que trabalham para os EUA em várias regiões em conflito (Afeganistão, Iraque, Síria, Líbia), agora estão mais presentes na Colômbia. Recentemente um desses grupos assassinou o presidente do Haiti.


O título original do filme, “El olvido que seremos”, colocou uma certa dificuldade para a tradução em português, já que o verbo “olvidar” significa esquecer. O título é inspirado no poema “Epitáfio”, do poeta argentino Jorge Luis Borges: “Já somos o esquecimento que seremos”. Esse título desvela a “máquina de morte” instalada na Colômbia, que pretende com os assassinatos de lideranças populares, silenciar as vozes dos seus lutadores e lutadoras. Aqui vamos encontrar uma rica discussão sobre memória, esquecimento, apagamento e preservação da história daqueles e daquelas que lutaram em defesa dos Direitos Humanos na América Latina. 



Serviço


Filme: “A ausência que seremos” (2021) - 2h16min.

Direção: Fernando Trueba

País: Colômbia

Plataforma: Netflix


Autor:

Francisco José Nunes

Mestre em Ciências Sociais - PUC-SP; Graduado em Filosofia; Professor na Faculdade Paulista de Comunicação - FPAC.


P.S.: Este artigo foi publicado originalmente no site "Construir Resistência", no dia 22 de outubro de 2021.


domingo, 17 de abril de 2022

Dia dos Professores sem flores e sem maçã

 

Banca de livros, em Paris (14/11/2017)
Foto: Francisco José Nunes


Dia dos Professores sem flores e sem maçã


Por: Francisco José Nunes



Virou lugar comum dizer que nada temos para comemorar no “Dia dos Professores”. Aos professores cabe a luta constante pela valorização da profissão e por melhores condições de trabalho. Entretanto, a arte e a cultura são os nossos combustíveis nessa caminhada. Vamos sugerir aqui o filme “La vie scolaire” (“A vida escolar”), infelizmente, no Brasil o filme foi lançado com o nome “Efeito Pigmalião”.


O filme está situado na cidade de Saint-Denis, localizada a noroeste de Paris. É uma cidade periférica, com favelas; cidade dormitório, com muitos operários e imigrantes de todas as regiões do mundo, principalmente do continente africano e dos países árabes. O palco principal do filme é uma escola pública, com todos os problemas típicos de uma escola periférica. A orientadora educacional Samia (Zita Hanrot) muda para Saint-Denis e começa a trabalhar nessa escola.


Imediatamente começam a aparecer os problemas enfrentados pelos alunos, mas muitos desses problemas também são comuns entre os professores e trabalhadores da educação. Tais como: falta de motivação, estresse, familiar detido em presídio, consumo e tráfico de drogas. Os questionamentos começam a aparecer: garotos da periferia conseguirão empregos estáveis; por que precisamos estudar a História da França; por que precisamos aprender equações matemáticas?


Esse filme foge do estilo “professor-herói”, do blablablá da meritocracia; além de ser um filme francês sem a Torre Eiffel, sem o Museu do Louvre e sem o Arco do Triunfo. Os alunos sofrem punições de caráter vingativo e humilhantes, aplicadas pelos inspetores da escola; os alunos negros e árabes fazem piadas entre si, sobre as suas origens familiares; Samia (a orientadora pedagógica) ao realizar reuniões com os pais dos alunos, entra em contato com uma quantidade enorme de problemas sociais, econômicos, religiosos e culturais, além de esbarrar nos limites e precariedades do sistema educacional oferecido para as periferias.


A política de “Guerra às Drogas” é um dos maiores problemas, porque corrompe os adolescentes traficantes e os adultos consumidores. Deixar o controle das drogas nas mãos do crime organizado e não sob o controle do sistema de saúde é um grande desastre para a periferia na França e em todo o mundo.


O filme é muito rico no uso das câmeras, seja na forma como acompanha os alunos nos corredores da escola, quando acompanha Samia na visita ao presídio, nas cenas estilo “vinheta” e na cena do acidente com uma motocicleta. Não por acaso, os diretores têm formação na área de audiovisual. A direção é de Mehdi Idir e de Grand Corps Malade (nome artístico de Fabien Marsaud). Ambos nasceram em Saint-Denis. Ambos tem muitos elementos em comum: Mehdi Idir fez Faculdade de Audiovisual, é dançarino de Hip-Hop, é amigo do grupo “The Wanted Posse” (Campeão Mundial de Dança Hip-Hop) e escreveu o roteiro desse filme inspirado na sua vida estudantil; Grand Corps Malade é um poeta de slam, cantor e cineasta. Esse filme é classificado como uma “dramédia”.


O título do filme em português - “Efeito Pigmalião" - é provocador de polêmica. Como já sabemos, a polêmica não contribui para a reflexão e nem para o avanço do conhecimento. Entretanto, vamos apontar aqui os problemas, porque eles estão incrustados no sistema educacional. A origem do termo “efeito Pigmaleão” vem da mitologia grega. Os mitos normalmente têm várias versões. Originalmente conta-se que Pigmalião, o rei de Chipre, não gostava das mulheres, porque segundo ele todas as mulheres são imperfeitas. Ocorre que Pigmalião era um grande escultor. Certa vez ele esculpiu a estátua de uma mulher, que ficou tão perfeita, que ele passou a oferecer presentes para ela e até se apaixonou por ela! Ele deu o nome de "Galateia'' para a estátua (esse nome significa “donzela branca''; em grego “galaktos” significa leite). Por isso, “galanteador” significa “aquele que corteja a mulher”.  Certa vez, ao participar de um festival dos deuses e deusas, Pigmalião pediu para a deusa Afrodite que transformasse Galateia numa mulher de verdade e ele foi atendido. Eles tiveram um filho e uma filha.


Atualmente a expressão “Efeito Pigmalião” é usada em várias áreas, motivada pela Psicologia. No sentido de que, quanto maior a expectativa e a atenção dada a uma pessoa, maior será o rendimento dela. Essa teoria é aplicada para a formação de equipes nas empresas e no trabalho pedagógico nas escolas. Inclusive, já foram feitas várias experiências em escolas com base nessa teoria. Infelizmente, essa teoria tem origem na misoginia e a sua aplicação privilegia o tratamento exclusivo para apenas uma parte do grupo. Mesmo que se diga, que a dedicação pode ser para todas as pessoas, o seu princípio parte da exclusividade. Felizmente o filme não trata do “efeito Pigmalião”. Provocando uma curiosidade enorme sobre o motivo da escolha desse nome para o filme aqui no Brasil. Na Espanha o título ficou muito mais simples e direto: “Os professores de Saint-Denis”. 


Viva os professores e as professoras que estão na luta cotidiana pela valorização da profissão, por uma educação de qualidade, laica e libertadora!



Serviço


Filme: “Efeito Pigmalião

Título original: “La vie scolaire”

Direção: Mehdi Idir e Grand Corps Malade

Ano: 2019 - 112 minutos

País de origem: França

Plataforma: Netflix


Autor:

Francisco José Nunes

Mestre em Ciências Sociais - PUC-SP; Graduado em Filosofia; Professor na Faculdade Paulista de Comunicação - FPAC.

P.S.: Este artigo foi publicado originalmente no site "Construir Resistência", no dia 12 de outubro de 2021.


O Nazismo e a destruição de Berlim

 

Museu Histórico Alemão, em Berlim (11//11/2017)
Foto: Francisco José Nunes

O Nazismo e a destruição de Berlim


Por: Francisco José Nunes




Estreou recentemente na plataforma Netflix a série “Sombras da Guerra”, com apenas uma temporada e oito episódios. A série aborda o período de reconstrução da cidade de Berlim após a Segunda Guerra Mundial. A série faz uma ótima recriação de época e situa a trama no verão de 1946 (o verão na Alemanha vai de 22 de junho até 22 de setembro).


A trama gira em torno do policial nova-iorquino Max McLaughlin (Taylor Kitsch), que é enviado a Berlim para treinar a polícia local de acordo com os padrões da polícia estadunidense. Ele vai contar com o apoio da policial alemã Elsie Garten (Nina Hoss), uma especialista em Linguística, que além de falar alemão, também fala inglês e russo. Mas além de cumprir sua missão oficial, Max pretende localizar o seu irmão Moritz (Logan Marshall-Green), que está desaparecido na Alemanha.


A situação de Berlim é lastimável: muitas mulheres prostituídas, muitas crianças órfãs, todas passando fome e todo tipo de necessidades. A cidade está sob escombros, com muitas ruínas; com os serviços de água, energia elétrica, gás, transporte e abastecimento, todos colapsados.


Em torno da trama principal, giram inúmeras subtramas, com muitas reviravoltas e com muitas informações, compactadas em apenas oito episódios. Tem grupos e pessoas agindo individualmente na caça de nazistas fugitivos; tem uma espécie de “Al Capone de Berlim”; tem um diplomata que organiza a fuga de lideranças nazistas para fora do continente europeu.


A série mostra os sinais do início da “Guerra Fria”, principalmente porque a cidade de Berlim foi dividida em quatro partes, pelos principais países que venceram a guerra: Rússia, EUA, Inglaterra e França. Há uma tentativa maniqueísta de colocar os estadunidenses como os “defensores da liberdade” e os russos com os “totalitários”. Mas o conflito que acaba ganhando evidência é o caso de um diplomata estadunidense que organiza planos de fuga para as lideranças nazistas.


Como é sabido, o Hitler se inspirou no sistema de segregação racial dos EUA para construir o seu modelo de sociedade de “raça superior”. Basta um voo panorâmico na história dos EUA para perceber que eles sempre estiveram longe de representar “o reino da liberdade”. Basta perguntar para a sua população negra e indígena.


Quanto aos planos de fuga para as lideranças nazistas a série não detalha, mas hoje se sabe que haviam várias rotas de fuga (ratline). A principal chamava-se “Rota do Vaticano” (por onde passaram 90% dos nazistas), que era uma rede baseada em vários mosteiros entre o percurso da Alemanha até a Itália. Com o apoio de padres e bispos, a igreja católica fornecia documentação falsa para as lideranças nazistas e estes criminosos embarcavam para a América do Sul, a maioria foi para a Argentina. Alguns tornaram-se assessores do Presidente Juan Domingos Perón.


Esta série tem importância, por sua qualidade estética, mas também pode inspirar muitas pessoas que vivem num certo país da América do Sul, que no momento está sendo devastado por hordas fascistas, e que necessitará de muita disposição de luta antifascista e de muita imaginação criativa para reconstruir o país.



Serviço:


Série: Sombras da Guerra (2021)

Título original: The Defeated

Criação: Mans Marlind

Países de origem: França, Canadá, Alemanha

Temporadas: 1 - Episódios: 8

Duração aproximada de cada episódio: 45 minutos



Autor:

Francisco José Nunes

Mestre em Ciências Sociais - PUC-SP; Graduado em Filosofia; Professor na Faculdade Paulista de Comunicação - FPAC.


P.S.: Este artigo foi publicado originalmente no site "Construir Resistência", no dia 08 de outubro de 2021.

terça-feira, 12 de abril de 2022

Hoje é sexta-feira de manhã

 

Volta Grande do Xingu (PA)
Foto: Jornal Brasil de Fato - 22/02/2022

“Hoje é sexta-feira de manhã”


Por: Francisco José Nunes




Considerando que iremos superar esta fase obscurantista, fascista, genocida. Precisaremos traçar o caminho dessa superação e montar nossa trilha musical para essa jornada!


Considerando que fascista odeia: poesia, música, artes e cultura. Considerando também que fascista odeia a natureza e a preservação do meio ambiente. Uma ótima música que devemos incluir em nossa trilha sonora é: “Borzeguim” (1981), uma das mais belas canções de Tom Jobim.


É fruto do mato

Borzeguim, deixa as fraldas ao vento

E vem dançar

E vem dançar


Hoje é sexta-feira da manhã

Hoje é sexta-feira

Deixa o mato crescer em paz

Deixa o mato crescer

Deixa o mato


Não quero fogo, quero água (Deixa o mato crescer em paz)

Não quero fogo, quero água (Deixa o mato crescer)


Hoje é sexta-feira da paixão, sexta-feira santa

Todo dia é dia de perdão

Todo dia é dia santo

Todo santo dia


Borzeguim é uma botina cujo cano se fecha com cordões. Nessa canção ela simboliza o caçador, o bandeirante, que chega para matar, devastar e explorar. Mas ele é convidado para dançar! Ele é alertado que, segundo a tradição popular, nas sextas-feiras é proibido caçar, porque é o dia da morte de Cristo. Para enfatizar, mais adiante a música diz que é “Sexta-feira Santa”!


O primeiro verso da canção remete à uma referência bíblica: “É fruto do mato”. Lembrando o Paraíso descrito no livro do Gênesis. Diante das ameaças e da devastação, o poeta oscila entre o “culto pagão à natureza” e a “descrição religiosa da natureza”. 


(...)

O jacu já tá velho na fruteira

O lagarto teiú tá na soleira

Uirassu foi rever a cordilheira

Gavião grande é bicho sem fronteira

Cutucurim (Cutucurim)

Gavião (Zão)

Gavião (Ão)

(...)

Deixa a onça viva na floresta

Deixa o peixe n’água que é uma festa

Deixa o índio vivo

Deixa o índio

Deixa (Deixa)


Dizem que o sertão vai virar mar (Dizem que o mar vai virar sertão)

Deixa o índio

Dizem que o mar vai virar sertão (Diz que o sertão vai virar mar)

Deixa o índio

Deixa, deixa


Outra relação que a canção coloca é entre a mata e a cidade. “O jacu já tá velho na fruteira”, de casa. Jacu é uma ave galiforme, semelhante a galinha, peru e faisão, que se alimenta de frutas. Da mesma forma é “o lagarto teiú tá na soleira”, da casa.


Por fim, a canção implora: “Deixa a onça viva na floresta / Deixa o peixe n’água que é uma festa / Deixa o índio vivo / Deixa o índio / Deixa (Deixa)”. A relação de Tom Jobim com a floresta é muito íntima, seja nas letras de suas canções, bem como na sua vida comprometida com a defesa do meio ambiente. E a sua defesa intransigente dos povos indígenas.


Lamentavelmente a “civilização cristã” quase acabou com a Mata Atlântica. Segundo a organização ambientalista WWF Brasil: “Hoje, restam apenas 7,3% da floresta original da Mata Atlântica, a quinta área mais ameaçada do planeta”. E a canção termina com a profecia de Antônio Conselheiro: 


“Dizem que o sertão vai virar mar / Dizem que o mar vai virar sertão”. Que a nova sociedade, que renascerá das cinzas da destruição que estamos vivendo, se inspire no projeto de Canudos, através da partilha do pão e da terra, de uma sociedade que tenha entre seus protagonistas os sertanejos, os negros e os indígenas.


Serviço:


“Borzeguim”


CD: “Amazônia, na trilha da floresta”

Interpretação: Mônica Salmaso e Mario Adnet

https://www.youtube.com/watch?v=Yra431cEAg0&ab_channel=marioadnetoficial


Gal Costa

https://www.youtube.com/watch?v=NJ_p88QGiHk&ab_channel=GalCosta-Topic


Tom Jobim - Ao Vivo em Montreal

https://www.youtube.com/watch?v=Dvt-LEl3Dn8&ab_channel=BiscoitoFino



Autor:

Francisco José Nunes

Mestre em Ciências Sociais - PUC-SP; Graduado em Filosofia; Professor

na Faculdade Paulista de Comunicação - FPAC.



P.S.: Este artigo foi publicado originalmente no site

"Construir Resistência", no dia 01 de outubro de 2021.


segunda-feira, 11 de abril de 2022

Olá, você tem um minuto para ouvir a palavra de Epicuro?

 

Epicuro - "Altes Museum", Berlim. 
Foto: Francisco José Nunes

Olá, você tem um minuto para ouvir a palavra de Epicuro?


Por: Francisco José Nunes



Epicuro foi um filósofo que viveu grande parte da sua vida na Grécia, especialmente em Atenas, ele nasceu em 341 e morreu em 270 a.C. 


No início da sua “Carta da Felicidade”, Epicuro diz: 


“Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz. Desse modo, a filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para quem está envelhecendo sentir-se rejuvenescer através da grata recordação das coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que estão por vir; é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcançá-la”.


Epicuro viveu durante o período em que o Império da Macedônia dominou a Grécia e todo o mundo antigo. Diante do imperialismo do Alexandre Magno, Epicuro vai propor a seus discípulos que vivam em comunidade, que estudem filosofia em grupo e que procurem ter uma vida econômica autossustentada.


A proposta de Epicuro foi muito influente no mundo antigo, encontrou semelhanças com as comunidades cristãs primitivas, manteve-se viva durante a Idade Média, ganhou a simpatia dos filósofos iluministas, foi tema da tese de doutorado do jovem Karl Marx e sua proposta permanece viva até os dias atuais.


A filosofia epicurista pode servir de alento nos dias de hoje, porque em meio a este ambiente hostil, caracterizado pela superexploração dos trabalhadores, acirramento do racismo, da violência contra mulheres, negros, indígenas e LGBTQIA+; a ênfase na vida em comunidade, no estudo da Filosofia, e, no esforço para buscar uma vida econômica que não seja dependente do sistema consumista, são, sem dúvida, uma alternativa de resistência e de possibilidade de construção de uma nova sociedade fundamentada em valores elevados, tais como: a justiça no mundo do trabalho, a defesa do meio ambiente, o respeito pela orientação de gênero, a busca pela igualdade social e a vida fraterna.


Sugestão de leitura:


Livro: “Carta da Felicidade”

Autor: Epicuro

Editora da UNESP - 2002 - 51 páginas

Edição bilíngue: Grego/Português

Tradutores: Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore



Autor:

Francisco José Nunes

Mestre em Ciências Sociais - PUC-SP; Graduado em Filosofia; Professor

na Faculdade Paulista de Comunicação - FPAC.


P.S.: Este artigo foi publicado originalmente no site

"Construir Resistência", no dia 17 de setembro de 2021.