terça-feira, 2 de julho de 2019

A culpa deve ser do sol

Albert Camus (1913-1960)


A culpa deve ser do sol

Texto de: Francisco José Nunes

       O escritor Albert Camus inicia o seu romance “O Estrangeiro”, com um dos parágrafos mais célebres da Literatura Universal:

         “Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: ‘Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames’. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem”.

         O personagem principal do livro é Meursault. Ele é funcionário de um escritório em Argel, capital da Argélia, norte do continente africano. Pouco sabemos de sua vida e de sua família.

         O segundo parágrafo do livro informa que sua mãe estava internada num “asilo para velhos” em Marengo, a oitenta quilômetros de Argel. Ele pede licença ao seu patrão para ir ao velório e ao enterro, providencia a roupa de luto e parte em viagem de ônibus.

         Após o enterro volta para sua rotina. No trabalho, na relação com os vizinhos, com a namorada. Em certo momento a namorada pergunta se ele a ama. Ele dá uma resposta evasiva, parecida com um “não”. Ela fica triste, mas depois ele dá um beijo nela e tudo segue normal. Mais adiante, Meursault envolve-se num conflito com um árabe e depois de perseguições e brigas, Meurseult encontra o árabe na praia, é ameaçado com uma faca, então saca de um revolver e atira no árabe.

           Meursault é o personagem-narrador, ele encontra o árabe tomando sol na praia e descreve a cena em um parágrafo:


         “Pensei que bastava dar meia-volta e tudo estaria acabado. Mas atrás de mim comprimia-se toda uma praia vibrante de sol. Dei alguns passos em direção à nascente. O árabe não se mexeu. Apesar disso, estava ainda bastante longe. Parecia sorrir, talvez por causa das sombras sobre o seu rosto. O queimar do sol ganhava-me as faces e senti gotas de suor se acumularem nas minhas sobrancelhas. Era o mesmo sol do dia em que enterrara mamãe e, como então, doía-me sobretudo a testa, e todas as suas veias batiam juntas debaixo da pele. Por causa deste queimar, que já não conseguia suportar, fiz um movimento para a frente. Sabia que era estupidez, que não me livraria do sol se desse um passo. Mas dei um passo, um só passo à frente. E desta vez, sem se levantar, o árabe tirou a faca, que ele me exibiu ao sol. A luz brilhou no aço e era como se uma longa lâmina fulgurante me atingisse na testa. No mesmo momento, o suor acumulado nas sobrancelhas correu de repente pelas pálpebras, recobrindo-as com um véu morno e espesso. Meus olhos ficaram cegos por trás desta cortina de lágrimas e de sal. Sentia apenas os címbalos do sol na testa e, de modo difuso, a lâmina brilhante da faca sempre diante de mim. Esta espada incandescente corroía as pestanas e penetrava meus olhos doloridos. Foi então que tudo vacilou. O mar trouxe um sopro espesso e ardente. Pareceu-me que o céu se abria em toda a sua extensão, deixando chover fogo. Todo o meu ser se retesou e crispei a mão sobre o revolver. O gatilho cedeu, toquei o ventre polido da coronha e foi aí, no barulho ao mesmo tempo seco e ensurdecedor, que tudo começou. Sacudi o suor e o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Então atirei quatro vezes ainda num corpo inerte em que as balas se enterravam sem que desse por isso. E era como se desse quatro batidas secas na porta da desgraça”.

         No Tribunal do Júri, indagado sobre o motivo para ter atirado no árabe, Meursault coloca a culpa no sol.

         A essa altura do livro, a maioria dos leitores chega à seguinte conclusão: “que absurdo”! Como pode existir uma pessoa tão insensível, tão indiferente, tão vazia? Que sensação estranha!

         É justamente esta sensação incômoda que Albert Camus pretende provocar em seus leitores. Uma sensação de estranhamento. Não só o árabe é tratado como estrangeiro, mas o ser humano é um estranho no mundo.

         Durante o julgamento, a principal acusação foi que Meursault não manifestou sentimentos durante o velório e o enterro de sua mãe. A ponto do advogado de defesa indagar se aquele julgamento se referia ao enterro da mãe ou a um assassinato?

         O escritor Albert Camus, além de romancista, era dramaturgo e filósofo. Ele elaborou uma filosofia conhecida por “Absurdismo”, isto é, visão de mundo em que considera a existência um absurdo, contraditória, difícil de ser compreendida e desprovida de sentido. Através de seu personagem, Camus leva ao extremo esta situação, para provocar o seu leitor.

         O personagem Meursault coloca em evidência as fraquezas, as contradições, o vazio produzido pela chamada “sociedade ocidental cristã”. Em que os valores mínimos de respeito pela vida sequer são preservados e a extinção da solidariedade humana provoca uma devastação na sociedade. Hoje, mais de 70 anos após sua publicação, o livro “O Estrangeiro” continua a nos desafiar!

           Albert Camus nasceu na Argélia, país que era colônia da França. Seu pai morreu nos campos de batalha, durante a 1ª Guerra Mundial, quando Camus tinha apenas um ano de idade. Durante a ocupação nazista na França, Camus lutou na resistência antinazista. A publicação do livro “O Estrangeiro”, em 1942, reflete os dilemas humanos mais dilacerantes. Em 1957 ele ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Em 1960 ele morreu, vítima de um acidente de automóvel, aos 47 anos de idade.

         Recentemente o cantor, compositor, dramaturgo e escritor Chico Buarque, lançou uma música em homenagem a Camus, adaptando sua obra ao calor do sol brasileiro. A música chama-se “As Caravanas”.

         O sol tem múltiplos sentidos. Seja porque sempre se disse que a razão ilumina a vida humana; mas também se disse que não é possível filosofar nos Trópicos, porque o calor atrapalha a reflexão.

         Infelizmente, nem na Europa, nem nos Trópicos a razão foi suficiente para impedir o fascismo, o holocausto, os massacres e os genocídios.


         Abaixo, a parte principal da música “As Caravanas”, de Chico Buarque:

         Sol
         A culpa deve ser do sol
         Que bate na moleira
         O sol que estoura as veias

         O suor que embaça os olhos e a razão
         E essa zoeira dentro da prisão
         Crioulos empilhados no porão
         De caravelas no alto mar

         Tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria
         Filha do medo, a raiva é mãe da covardia

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Certidão de Existência é um documento vital


(Protágoras de Abdera - Quadro de Jusepe de Ribera - 1637)


Certidão de Existência é um documento vital

Francisco José Nunes


         Pode parecer estranho quando ouvimos falar pela primeira vez em “Certidão de Existência”! Afinal de contas, o documento normal é “Certidão de Nascimento”. Mas todos sabemos na prática, que não basta que a pessoa exista, é preciso que ela seja reconhecida.


O reconhecimento da existência das pessoas sempre foi um grande desafio. Vamos refletir sobre este tema partindo da frase do Sofista Protágoras de Abdera, que viveu na Grécia entre os anos de 480 e 410 a.C. Portanto, morreu aos 70 anos de idade.

         “O homem é a medida de todas as coisas; daquelas que são, enquanto são; e daquelas que não são, enquanto não são”.

      Com esta tese Protágoras introduz na história da Filosofia um conceito extremamente importante e complexo, isto é: o Relativismo. Este conceito parte da seguinte afirmação: “Tudo é relativo”! Ora, imediatamente os filósofos perguntarão: esta afirmação é absoluta ou relativa? Porque se a resposta for “é absoluta”, concluiremos que esta afirmação é falsa. Porque se “tudo é relativo”, esta afirmação não pode ser absoluta! Já que tudo é relativo. Se a resposta for: “é relativa”, concluiremos que a tese é inválida, porque não se trata efetivamente de uma afirmação. Portanto, pode ser que nem tudo seja relativo. O relativismo parte de uma contradição interna. Mas o conceito é útil para “relativizar” as imposições, autoritarismos e arbitrariedades. Também é útil na pesquisa, já a busca pelo conhecimento estará sempre aberta novas experiências e descobertas.

         No campo da Antropologia o relativismo ofereceu uma grande contribuição ao desenvolver o que conhecemos por “Relativismo Cultural”. Isto é, ao relativizar a “cultura eurocêntrica” como padrão de medida para as demais culturas, desencadeou-se uma ofensiva ao “Etnocentrismo”. Isto quer dizer, adotar uma cultura como a referência central e a partir dela medir as demais culturas. Historicamente a “cultura europeia” foi adotada como padrão para medir as demais culturas. Os antropólogos passaram a demonstrar que não existem “culturas avançadas” e “culturas atrasadas”. O que existem são culturas com histórias, hábitos e conquistas diferentes. Por exemplo, não podemos dizer que a “cultura francesa” seja superior à “cultura Yanomami”. E muito menos dizer que a cultura yanomami seja superior à cultura francesa.

O tema do relativismo está expresso na primeira parte da frase: “O homem é a medida de todas as coisas”. O sentido do termo “homem” é aplicado em todas as circunstâncias. O “homem” no gênero masculino. Principalmente porque, na Grécia Antiga a mulher era considerada um “homem incompleto”. Mas também introduz um conceito importantíssimo: o subjetivismo. Por exemplo, cada pessoa, individualmente é que dá a medida para as coisas: se uma casa é grande ou pequena, feia ou bonita, cara ou de baixo custo.

         Agora podemos ir para a segunda parte da frase: “daquelas que são enquanto são; e daquelas que não são, enquanto não são”.

         É o ser humano, individualmente, que decide se algum ser existe ou não. Em outras palavras, é uma pessoa que dá a “Certidão de Existência” para outra pessoa.

         Por exemplo, quando você chega no local de trabalho e dá bom dia para todas as pessoas, mas pensando ter cumprimentado todas as pessoas, esqueceu de dar bom dia para uma delas. Esta pessoa poderá se questionar: “será que ele não me viu aqui”? Se por distração, isto ocorrer novamente com a mesma pessoa, ela vai concluir que você está propositalmente desconhecendo a existência dela.

         Agora imaginemos quando esta situação é feita de propósito. Isto na Grécia tinha um nome: “ostracismo”, que quer dizer: punição para uma pessoa através do afastamento das atividades políticas, da vida social e intelectual. Uma penalidade cruel, porque a pessoa permanecia na cidade, mas era impedida de manter relacionamento com as demais pessoas.

       Se tomarmos a sociedade brasileira iremos observar a gravidade desse problema. Durante séculos as pessoas negras escravizadas não foram reconhecidas com “seres humanos”. Demorou muito tempo para que a Igreja Católica admitisse que as pessoas negras e indígenas tinham alma. Até hoje esta batalha pela conquista da “Certidão de Existência” permanece. O fato da população negra não ocupar espaço de visibilidade positiva na mídia; de não terem um número expressivo de pessoas negras em profissões de alto reconhecimento social, tais como a Medicina e o Direito; demonstra a falta de reconhecimento das pessoas negras.

         Outra situação gravíssima é o caso das pessoas deficientes. São muito recentes as conquistas de acessibilidade universal no transporte público, nos edifícios comerciais, educacionais, artísticos e religiosos. Até hoje muitos locais de atendimento ao público não têm acessibilidade universal. Inclusive em instituições que tem por missão defender os Direitos Sociais.

         O mesmo é válido para as pessoas idosas. Algumas conquistas foram importantes, como por exemplo no acesso universal e gratuito ao transporte público e nos ingressos para atividades artísticas. Mas infelizmente, em pleno Século XXI, a pessoa idosa foi transformada em problema: ela é discriminada nos espaços públicos, na Publicidade, nos Meios de Comunicação; é alvo de humilhação através do humor covarde e preconceituoso; e, é “depositada” em instituições de longa duração para pessoas idosas. Há uma tentativa constante de retirada da “Certidão de Existência” da pessoa idosa.

         Concluindo, podemos dizer que as pessoas e a sociedade têm um poder muito grande que é o de reconhecer ou não a existência das demais pessoas. Muitas pessoas não tomam consciência deste poder. Refletir sobre os desafios propostos por Protágoras de Abdera é muito importante!


terça-feira, 25 de junho de 2019

Solidariedade Intergeracional ou Capitalização?!


(Faixa em defesa da Previdência Social, no Páteo do Colégio, dia 17 de junho de 2019)


Solidariedade intergeracional ou Capitalização?!

Coletivo Envelhecer


A Emenda Constitucional 06/2019 que pretende modificar o sistema de Previdência Social, ao fim e ao cabo, pretende acabar com o sistema de “Solidariedade Intergeracional” e substituí-lo pelo sistema privado de “Capitalização”.

O sistema de Capitalização foi adotado em inúmeros países e na maioria deles fracassou. O exemplo mais próximo à nós é o do Chile. Adotado durante a Ditadura do General Augusto Pinochet, que deu um Golpe de Estado no dia 11 de setembro de 1973 e impôs a mudança no sistema de Previdência Social e outras mudanças, com base na tortura, assassinatos e exílio de milhares de pessoas. O atual Ministro da Economia Paulo Guedes, participou da execução desse plano criminoso no Chile. Hoje milhares de pessoas idosas chilenas recebem menos do que um salário mínimo para sobreviver. Levando muitas delas ao suicídio!

Se a Emenda 06/2019 for aprovada, as pessoas idosas passarão a receber um BPC (Benefício de Prestação Continuada) no valor de R$400,00. Além de ser uma crueldade, esta decisão levará milhares de pessoas idosas à condição de esmoleiros nas ruas do nosso país.


A CPI da Previdência demonstrou que não existe “déficit da Previdência”. Na verdade, existe superávit! Entre 2000 e 2015, o superávit foi de R$821,7 bilhões. Em contrapartida, nos últimos 15 anos, a Previdência deixou de arrecadar mais de R$4,7 trilhões com desvios, sonegações e dívidas.
As mudanças no Sistema de Previdência Social pretendem transferir uma fortuna enorme dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiras para os banqueiros e rentistas!


Em defesa dos 99% do povo brasileiro!

Do Orçamento da União, de cerca de 2 trilhões e 650 bilhões de reais, mais de 40%, aproximadamente 1 trilhão e 65 bilhões de reais, são para pagar os juros da Dívida Pública! Isto é, vai para os cofres dos banqueiros e rentistas! Que são cerca de 1% da população brasileira!
Pelo menos 1,2 trilhão de reais da Dívida Pública é ilegal! É preciso que se faça uma Auditoria Cidadã da Dívida Pública!  https://auditoriacidada.org.br/

A ganância dos banqueiros e rentistas é insaciável! Precisamos romper com a “Espiral do Silêncio” imposta pelos Meios de Comunicação e pelas Instituições Religiosas. Quem impõem o “pensamento único” da “Reforma da Previdência”. Não se abre espaço para ouvir o outro lado!

Estamos vivendo em um ambiente religioso que idolatra o “Deus Capital”! Esta prática religiosa exige sacrifício de vidas humanas e da natureza, para saciar a fúria do “Deus Capital”! Por isso, todas as medidas de “austericídio” provocam a desproteção e a morte dos mais fracos: pessoas idosas, deficientes, mulheres pobres, população negra.


Propostas para uma sociedade fraterna e solidária:

1.   Instituição de imposto sobre grandes fortunas. Arrecadação prevista: R$47,6 bilhões por ano.
2.    Criação do imposto sobre propriedade de veículos automotores (IPVA) para aviões, helicópteros e embarcações de passeio. Arrecadação prevista: R$4,6 bilhões por ano.
3.    Eliminação da isenção da taxação de lucros e dividendos e da permissão de dedução dos juros sobre o capital próprio. Arrecadação prevista: R$55 bilhões por ano.
4.     Majoração da alíquota máxima do imposto sobre grandes heranças (ITCMD – Imposto sobre a Transmissão Causa Mortis e Doação) como parte da resolução da crise sobre nos Estados. Arrecadação prevista: R$35 bilhões por ano.
5.     Por uma Auditoria Cidadã da Dívida Pública.
6.     Pela Garantia do BPC a partir dos 60 anos, mantendo sua vinculação ao Salário Mínimo.
7.     Pela defesa intransigente do SUS, do SUAS e da Previdência Social.

terça-feira, 18 de junho de 2019

O Julgamento de Sócrates

"A morte de Sócrates", quadro de Jacques-Louis David (1787)


O Julgamento de Sócrates

          Vivemos tempos sombrios no Brasil, caracterizado pela perseguição ao Ensino de Filosofia e a prática do “lawfare”, isto é, quando o Sistema Judiciário é usado para fazer perseguição política.

          Estes acontecimentos nos remetem ao “Julgamento de Sócrates”, que ficou eternizado na obra de Platão intitulada: “Defesa de Sócrates”. Algumas editoras também traduzem por: “Apologia de Sócrates”.

          Sócrates foi julgado e condenado no ano 399 a.C., em Atenas. Foi condenado a tomar cicuta, um veneno mortal. O filósofo morreu aos 70 anos de idade.

As acusações para o seu julgamento foram:


         1ª) Não aceitar os deuses de Atenas;
         2ª) Introduzir novas divindades em Atenas;
         3ª) Corromper a juventude ateniense.

         Em que consistiam estas acusações?

         1º) Os deuses oficiais do Estado são, na maioria das vezes, em todos os povos, manipulados para legitimar os políticos que estão no poder. Considerando que a Democracia Grega estava em decadência, por vários motivos, dentre eles a ascensão de um grupo de políticos autoritários que assaltavam o poder em Atenas.

         Outro motivo foi o período da decadência das Escolas dos Sofistas, que transformaram a Democracia em demagogia, que aqui podemos resumir na expressão: “arte de manipular e agradar o povo”. Através de promessas que certamente não serão cumpridas; ou da adoção de medidas que agradam parte da sociedade, mas prejudica a maioria. Por exemplo: relaxar o rigor da fiscalização das Leis de Trânsito e da Legislação sobre o Meio Ambiente.

         Tudo isso legitimado por um discurso religioso, com as autoridades religiosas e políticas atuando em sintonia.

Sócrates era implacável em suas críticas, especialmente usando da ironia, isto é, do questionamento sistemático desse tipo de manipulação religiosa.


         2º) Sobre as novas divindades. Sócrates se referia a um certo “daímon”, isto é, “uma potência divina”, que também podemos chamar de razão. Ou seja, Sócrates ajudava as pessoas a pensar com a própria cabeça, mas os seus adversários preferiam classificar o exercício do pensamento como algo perigoso e por isso foi apresentada a seguinte alternativa: se Sócrates parasse de filosofar, seria absolvido. Mas Sócrates disse que deixar de filosofar seria o mesmo que morrer, por isso, não abandonaria a Filosofia.


         3º) Corromper a juventude. A juventude ateniense era instruída pelos Sofistas, que ensinavam os jovens a serem bons oradores, a serem convincentes a qualquer custo e a buscarem o sucesso a qualquer preço.

         Ora, Sócrates ensinava os jovens a questionar os Sofistas, os Políticos, os Militares, os Comerciantes, os Líderes Religiosos. Isso passou a incomodar muito os poderosos.

         Por incrível que pareça, esta história é muito atual. Por isso, a Filosofia continua perigosa depois de 2.500 anos após a morte de Sócrates.

         Vamos concluir com a citação de uma passagem do livro “Defesa de Sócrates”, onde ele fala sobre o papel do juiz:

         “Atenienses, não me parece ser justo fazer preces ao juiz e conseguir fazer preces ao juiz e conseguir absolvição por meio de súplicas. Ao juiz, é preciso dar esclarecimentos e procurar convencê-lo, pois o juiz não tem assento no tribunal para fazer da justiça um favor, mas para decidir o que é justo. Não fez o juramento para favorecer o que lhe agrade, mas para julgar segundo as leis”.


Bibliografia

BENOIT, Hector. Sócrates: o nascimento da razão negativa. São Paulo: Editora           Moderna, 1996.
CHAUI, Marilena. Sócrates: o elogio da Filosofia. In: Introdução à História da     Filosofia – Dos Pré-Socráticos a Aristóteles – Volume I. São Paulo: Companhia das   Letras, 2002.
PLATÃO. Defesa de Sócrates. São Paulo: Nova Cultural, 1987. Coleção Os   Pensadores.

domingo, 9 de junho de 2019

A maldição da longevidade

"A maldição da longevidade"
Francisco José Nunes

Ao longo do Século XX o Brasil, a cada década, comemorava o aumento da sua expectativa de vida. Ao iniciarmos o Século XXI, o aumento da expectativa de vida tornou-se uma maldição! Um grande problema para a sociedade! A ponto do Superministro da Economia Paulo Guedes declarar que: “Gastamos hoje mais com idosos do que com os nossos jovens” (Jornal Correio Brasiliense, 30/05/2019, Caderno de Economia).

Se observarmos a evolução da expectativa de vida da população brasileira ao longo do Século XX e início do Século XXI, veremos que as lutas dos movimentos populares resultaram nas melhorias das condições de vida do povo. A longevidade é fruto de vários fatores: melhorias no Sistema de Saúde; melhorias no Sistema Educacional; melhorias na vida urbana; entre outros.

Um panorama desta evolução pode ser constatado pelos seguintes números: em 1910, a expectativa de vida no Brasil era de 34 anos; em 1940, de 41,5; em 1950, de 45,5; em 1960, de 51,6; em 1970, de 53, 6; em 1980, de 62,5; em 1991, de 66,9; em 2000, de 70,4; em 2010, em 73,9.

Sabemos que a expectativa de vida tem inúmeras variações se considerarmos a região onde a pessoa mora, sua classe social e seu gênero. Por exemplo, de acordo com o Censo de 2010: a expectativa de vida média na região Nordeste era de 70,2 anos e na região Sul era de 75,9.

Na cidade de São Paulo os números são mais gritantes. Em 2018, um morador do bairro Jardim Paulista tem a expectativa de vida de 81,58. Enquanto que um morador do bairro Cidade Tiradentes tem a expectativa de vida de apenas 58,45. A média da expectativa de vida na cidade de São Paulo é de 70,56. Esses dados estão no “Mapa da Desigualdade – São Paulo – 2018”.

A aventura da existência impõe ao ser humano inúmeros conflitos. Neste caso, a questão é: “Vale a pena desejar a longevidade”?

Poderíamos recorrer a vários filósofos e filósofas para ajudar-nos a refletir sobre esta questão. Mas para o momento vamos recorrer a apenas um, o filósofo grego Epicuro, do Século III a.C.


Busto do filósofo Epicuro - Museu Antigo de Berlim (Altes Museum)
Crédito da foto: Francisco José Nunes (novembro/2017)


Em sua famosa “Carta da Felicidade”, escrita para o discípulo Meneceu, ele inicia da seguinte maneira: “Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz. Desse modo, a filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para quem está envelhecendo sentir-se rejuvenescer por meio da grata recordação das coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que estão por vir; é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcança-la”.

Essa carta de Epicuro é maravilhosa! Merece um outro momento para a reflexão dela toda.

Para o presente momento cabe ressaltar que Epicuro viveu durante o período do Helenismo, isto é, do Império da Macedônia, com suas conquistas iniciadas por Alexandre, o Grande. Ao dominar a Grécia, acabou a Democracia e todas as suas conquistas foram fortemente prejudicadas: a Filosofia, a Educação, as Ciências, as Artes, o Comércio, a Urbanização etc.

O filósofo Epicuro produziu uma filosofia em respostas a este estado de coisas. E colocou em prática os seus ensinamentos. Ele criou uma comunidade na periferia de Atenas e lá vivenciou a sua filosofia. Que pode ser assim resumida: 1º) devemos viver em comunidade (não necessariamente no mesmo local, mas ter um local como referência); 2º) devemos estudar filosofia individualmente e em grupos; 3º) devemos evitar o consumismo imposto pelo império e buscarmos uma vida saudável; 4º) devemos cultivar as amizades; 5º) devemos sempre buscar os prazeres elevados: estudar filosofia e evitar tomar as refeições sozinho; entre outros prazeres.

É incrível a atualidade da filosofia epicurista!

Epicuro morreu no ano 270 a.C., com a idade de 72 anos.

Que Epicuro nos inspire e nos ilumine nestes tempos obscuros que estamos vivendo!


Bibliografia:

EPICURO. Carta da Felicidade. Edição bilíngue: Grego/Português. Tradução e apresentação de: Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore. São Paulo: Editora Unesp, 2002.
SIMÕES, Celso Cardoso da Silva. Relações entre as alterações históricas na dinâmica demográfica brasileira e os impactos decorrentes do processo de envelhecimento da população. Rio de Janeiro: IBGE, 2016.

Jornal Correio Brasiliense - 30/05/2019 - Caderno de Economia.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Conto: "Primeiro de Maio", Mário de Andrade

Crônica importantíssima e muito atual!
Refere-se à Ditadura do Estado Novo (1937-1945).
Escrita, provavelmente, ao longo do período entre 1934 e 1942.
Mário de Andrade faleceu em 1945.
Esta crônica faz parte do livro "Contos Novos", uma publicação póstuma, de 1947.

Mário de Andrade não diz o nome do trabalhador, apenas "o número 35", número do jaleco do carregador que trabalhava na Estação da Luz. Vale a pena ler a crônica e debater com os companheiros e companheiras!

A classe trabalhadora já passou por momentos mais obscuros do que o que estamos vivendo e nem por isso esmoreceu!

Viva a luta histórica da classe trabalhadora!





Primeiro de Maio
Mário de Andrade
Livro: “Contos Novos”

Os outros carregadores mais idosos, meio que tinham caçoado do bobo, viesse trabalhar que era melhor, trabalho deles não tinha feriado. Mas o 35 retrucava com altivez que não carregava mala de ninguém, havia de celebrar o dia deles. E agora tinha o grande dia pela frente.

Dia dele... Primeiro quis tomar um banho pra ficar bem digno de existir. A água estava gelada, ridente, celebrando, e abrira um sol enorme e frio lá fora. Depois fez a barba. Barba era aquela penuginha meio loura, mas foi assim mesmo buscar a navalha dos sábados, herdada do pai, e se barbeou. Foi se barbeando. Nu só da cintura pra cima por causa da mamãe por ali, de vez em quando a distância mais aberta do espelhinho refletia os músculos violentos dele, desenvolvidos desarmoniosamente nos braços, na peitaria, no cangote, pelo esforço quotidiano de carregar peso. O 35 tinha um ar glorioso e estúpido. Porém ele se agradava daqueles músculos intempestivos, fazendo a barba.

Ia devagar porque estava matutando. Era a esperança dum turumbamba macota, em que ele desse uns socos formidáveis nas ruças dos polícias. Não teria raiva especial dos polícias, era apenas a ressonância vaga daquele dia. Com seus vinte anos fáceis, o 35 sabia, mais da leitura dos jornais que de experiência, que o proletariado era uma classe oprimida. E os jornais tinham anunciado que se esperava grandes "motins" do Primeiro de Maio, em Paris, em Cuba, no Chile, em Madri. 

O 35 apressou a navalha de puro amor. Era em Madri, no Chile que ele não tinha bem lembrança se ficava na América mesmo, era a gente dele... Uma piedade, um beijo lhe saía do corpo todo, feito proteção sadia de macho, ia parar em terras não sabidas, mas era a gente dele, defender, combater, vencer... Comunismo? ... Sim, talvez fosse isso. Mas o 35 não sabia bem direito, ficava atordoado com as notícias, os jornais falavam tanta coisa, faziam tamanha mistura de Rússia, só sublime ou só horrenda, e o 35 infantil estava por demais machucado pela experiência pra não desconfiar, o 35 desconfiava. Preferia o turumbamba porque não tinha medo de ninguém, nem do Carnera, ah, um soco bem nas ruças dum polícia... A navalha apressou o passo outra vez. Mas de repente o 35 não imaginou mais em nada por causa daquele bigodinho de cinema que era a melhor preciosidade de todo o seu ser. Lembrou aquela moça do apartamento, é verdade, nunca mais tinha passado lá pra ver se ela queria outra vez, safada! Riu.

Afinal o 35 saiu, estava lindo. Com a roupa preta de luxo, um nó errado na gravata verde com listinhas brancas e aqueles admiráveis sapatos de pelica amarela que não pudera sem comprar. O verde da gravata, o amarelo dos sapatos, bandeira brasileira, tempos de grupo escolar... E o 35 comoveu num hausto forte, querendo bem o seu imenso Brasil, imenso colosso gigante, foi andando depressa, assobiando. Mas parou de sopetão e se orientou assustado. O caminho não era aquele, aquele era o caminho do trabalho. 

Uma indecisão indiscreta o tornou consciente de novo que era o Primeiro de Maio, ele estava celebrando e não tinha o que fazer. Bom, primeiro decidiu ir na cidade pra assuntar alguma coisa. Mas podia seguir por aquela direção mesmo, era uma volta, mas assim passava na Estação da Luz dar um bom-dia festivo aos companheiros trabalhadores. Chegou lá, gesticulou o bom-dia festivo, mas não gostou porque os outros riram dele, bestas. Só que em seguida não encontrou nada na cidade, tudo fechado por causa do grande dia Primeiro de Maio. Pouca gente na rua. Deviam de estar almoçando já, pra chegar cedo no maravilhoso jogo de futebol escolhido pra celebrar o grande dia. Tinha, mas era muito polícia, polícia em qualquer esquina, em qualquer porta cerrada de bar e de café, nas joalherias, quem pensava em roubar! nos bancos, nas casas de loteria. O 35 teve raiva dos polícias outra vez.

E como não encontrasse mesmo um conhecido, comprou o jornal pra saber. Lembrou de entrar num café, tomar por certo uma média, lendo. Mas a maioria dos cafés estavam de porta cerrada e o 35 mesmo achou que era preferível economizar dinheiro por enquanto, porque ninguém não sabia o que estava pra suceder. O mais prático era um banco de jardim, com aquele sol maravilhoso. Nuvens? umas nuvenzinhas brancas, ondulando no ar feliz. Insensivelmente o 35 foi se encaminhando de novo para os lados do Jardim da Luz. Eram os lados que ele conhecia, os lados em que trabalhava e se entendia mais. De repente lembrou que ali mesmo na cidade tinha banco mais perto, nos jardins do Anhangabaú. Mas o Jardim da Luz ele entendia mais. Imaginou que a preferência vinha do Jardim da Luz ser mais bonito, estava celebrando. E continuou no passo em férias.

Ao atravessar a estação achou de novo a companheirada trabalhando. Aquilo deu um mal-estar fundo nele, espécie não sabia bem, de arrependimento, talvez irritação dos companheiros, não sabia. Nem quereria nunca decidir o que estava sentindo já... Mas disfarçou bem, passando sem parar, se dando por afobado, virando pra trás com o braço ameaçador, "Vocês vão ver!...” Mas um riso aqui, outro riso acolá, uma frase longe, os carregadores companheiros, era tão amigo deles, estavam caçoando. O 35 se sentiu bobo, impossível recusar, envilecido. Odiou os camaradas. Andou mais depressa, entrou no jardim em frente, o primeiro banco era a salvação, sentou-se. Mas dali algum companheiro podia divisar ele e caçoar mais, teve raiva. Foi lá no fundo do jardim campear banco escondido. Já passavam negras disponíveis por ali. E o 35 teve uma idéia muito não pensada, recusada, de que ele também estava uma espécie de negra disponível, assim. Mas não estava não, estava celebrando, não podia nunca acreditar que estivesse disponível e não acreditou. Abriu o jornal. Havia logo um artigo muito bonito, bem pequeno, falando na nobreza do trabalho, nos operários que eram também os "operários da nação", é isso mesmo. O 35 se orgulhou todo comovido. Se pedissem pra ele matar, ele matava roubava, trabalhava grátis, tomado dum sublime desejo de fraternidade, todos os seres juntos, todos bons... Depois vinham as notícias. Se esperavam "grandes motins" em Paris, deu uma raiva tal no 35. E ele ficou todo fremente, quase sem respirar, desejando "motins" (devia ser turumbamba) na sua desmesurada força física, ah, as ruças de algum... polícia? polícia. Pelo menos os safados dos polícias.

Pois estava escrito em cima do jornal: em São Paulo a Polícia proibira comícios na rua e passeatas, embora se falasse vagamente em motins de tarde no Largo da Sé. Mas a polícia já tomara todas as providências, até metralhadoras, estavam em cima do jornal, nos arranha-céus, escondidas, o 35 sentiu um frio. O sol brilhante queimava, banco na sombra? Mas não tinha, que a Prefeitura, pra evitar safadez dos namorados, punha os bancos só bem no sol. E ainda por cima era aquela imensidade de guardas e polícias vigiando que nem bem a gente punha a mão no pescocinho dela, trilo. Mas a Polícia permitiria a grande reunião proletária, com discurso do ilustre Secretário do Trabalho, no magnífico pátio interno do Palácio das Indústrias, lugar fechado! A sensação foi claramente péssima. Não era medo, mas por que que a gente havia de ficar encurralado assim! é! E pra eles depois poderem cair em cima da gente, (palavrão)! Não vou! não sou besta! Quer dizer: vou sim! desaforo! (palavrão), socos, uma visão tumultuaria, rolando no chão, se machucava mas não fazia mal, saíam todos enfurecidos do Palácio das Indústrias, pegavam fogo no Palácio das Indústrias, não! a indústria é a gente, "operários da nação" pegavam fogo na igreja de São Bento mais próxima que era tão linda por “drento”, mas pra que pegar fogo em nada! (O 35 chegara até a primeira comunhão em menino...), é melhor a gente não pegar fogo em nada; vamos no Palácio do Governo, exigimos tudo do Governo, vamos com o general da Região Militar, deve ser gaúcho, gaúcho só dá é farda, pegamos fogo no palácio dele. Pronto. Isso o 35 consentiu, não porque o tingisse o menor separatismo (e o aprendido no grupo escolar?) mas nutria sempre uma espécie de despeito por São Paulo ter perdido na revolução de 32. Sensação aliás quase de esporte, questão de Palestra-Coríntians, cabeça inchada, porque não vê que ele havia de se matar por causa de uma besta de revolução diz-que democrática, vão "eles"!... Se fosse o Primeiro de Maio, pêlos menos... O 35 percebeu que se regava todo por “drento” dum espírito generoso de sacrifício. Estava outra vez enormemente piedoso, morreria sorrindo, morrer... Teve uma nítida, envergonhada sensação de pena. Morrer assim tão lindo, tão moço. A moça do apartamento...

Salvou-se lendo com pressa, oh! os deputados trabalhistas chegavam agora às nove horas, e o jornal convidavam (sic) o povo pra ir na Estação do Norte (a estação rival, desapontou) pra receber os grandes homens. Se levantou mandado, procurou o relógio da torre da Estação da Luz, ora! não dava mais tempo! quem sabe se dá!

Foi correndo, estava celebrando, raspou distraído o sapato lindo na beira de tijolo do canteiro (palavrão), parou botando um pouco de guspe no raspão, depois engraxo, tomou o bonde pra cidade, mas dando uma voltinha pra não passar pelos companheiros da Estação. Que alvoroço por dentro, ainda havia de aplaudir os homens. Tomou o outro bonde pro Brás. Não dava mais tempo, ele percebia, eram quase nove horas quando chegou na cidade, ao passar pelo Palácio das Indústrias, o relógio da torre indicava nove e dez, mas o trem da Central sempre atrasa, quem sabe? bom: às quatorze horas venho aqui, não perco, mas devo ir, são nossos deputados no tal de congresso, devo ir. Os jornais não falavam nada dos trabalhistas, só falavam dum que insultava muito a religião e exigia divórcio, o divórcio o 35 achava necessário (a moça do apartamento...), mas os jornais contavam que toda a gente achava graça no homenzinho "Vós, burgueses", e toda a gente, os jornais contavam, acabaram se rindo do tal do deputado. E o 35 acabou não achando mais graça nele. Teve até raiva do tal, um soco é que merecia. E agora estava torcendo pra não chegar com tempo na Estação.

Chegou tarde. Quase nada tarde, eram apenas nove e quinze. Pois não havia mais nada, não tinha aquela multidão que ele esperava, parecia tudo normal. Conhecia alguns carregadores dali também e foi perguntar. Não, não tinham reparado nada, decerto foi aquele grupinho que parou na porta da Estação, tirando fotografia Aí outro carregador conferiu que eram os deputados sim, porque tinham tomado aqueles dois sublimes automóveis oficiais. Nada feito. 

Ao chegar na esquina o 35 parou pra tomar o bonde, mas vários bondes passaram. Era apenas um moço bem-vestidinho, decerto à procura de emprego por aí, olhando a rua. Mas de repente sentiu fome e se reachou. Havia por dentro, por “drento” dele um desabalar neblinoso de ilusões, de entusiasmo e uns raios fortes de remorso. Estava tão desagradável, estava quase infeliz... Mas como perceber tudo isso se ele precisava não perceber!... O 35 percebeu que era fome.

Decidiu ir a-pé pra casa, foi a-pé, longe, fazendo um esforço penoso para achar interesse no dia. Estava era com fome, comendo aquilo passava. Tudo deserto, era por ser feriado, Primeiro de Maio. Os companheiros estavam trabalhando, de vez em quando um carrego, o mais eram conversas divertidas, mulheres de passagem, comentadas, piadas grossas com as mulatas do jardim, mas só as bem limpas mais caras, que ele ganhava bem, todos simpatizavam logo com ele, ora por que que hoje me deu de lembrar aquela moça do apartamento!... Também: moça morando sozinha é no que dá. Em todo caso, pra acabar o dia era uma idéia ir lá, com que pretexto?... Devia ter ido em Santos, no piquenique da Mobiliadora, doze paus o convite, mas o Primeiro de Maio... Recusara, recusara repetindo o "não" de repente com raiva, muito interrogativo, se achando esquisito daquela raiva que lhe dera. Então conseguiu imaginar que esse piquenique monstro, aquele jogo de futebol que apaixonava eles todos, assim não ficava ninguém pra celebrar o Primeiro de Maio, sentiu-se muito triste, desamparado. E melhor tomo por esta rua. Isso o 35 percebeu claro, insofismável que não era melhor, ficava bem mais longe. Ara, que tem! Agora ele não podia se confessar mais que era pra não passar na Estação da Luz e os companheiros não rirem dele outra vez. E deu a volta, deu com o coração cerrado de angústia indizível, com um vento enorme de todo o ser soprando ele pra junto dos companheiros, ficar lá na conversa, quem sabe? trabalhar... E quando a mãe lhe pôs aquela esplêndida macarronada celebrante sobre a mesa, o 35 foi pra se queixar "Estou sem fome, mãe". Mas a voz lhe morreu na garganta.

Não eram bem treze horas e já o 35 desembocava no parque Pedro II outra vez, à vista do Palácio das Indústrias. Estava inquieto mas modorrento, que diabo de sol pesado que acaba com a gente, era por causa do sol. Não podia mais se recusar o estado de infelicidade, a solidão enorme, sentida com vigor. Por sinal que o parque já se mexia bem agitado. Dezenas de operários, se via, eram operários endomingados, vagueavam, por ali, indecisos, ar de quem não quer. Então nas proximidades do palácio, os grupos se apinhavam, conversando baixo, com melancolia de conspiração. Polícias por todo lado.

O 35 topou com o 486, grilo quase amigo, que policiava na Estação da Luz. O 486 achara jeito de não trabalhar aquele dia porque se pensava anarquista, mas no fundo era covarde. Conversaram um pouco de entusiasmo semostradeiro, um pouco de primeiro de maio, um pouco de "motim". O 486 era muito valentão de boca, o 35 pensou. Pararam bem na frente do Palácio das Indústrias que fagulhava de gente nas sacadas, se via que não eram operários, decerto os deputados trabalhistas, havia até moças, se via que eram distintas, todos olhando para o lado do parque onde eles estavam.

Foi uma nova sensação tão desagradável que ele deu de andar quase fugindo, polícias, centenas de polícias, moderou o passo como quem passeia. Nas ruas que davam pro parque tinha cavalarias aos grupos, cinco, seis escondidos na esquina, querendo a discrição de não ostentar força e ostentando. Os grilos ainda não faziam mal, são uns (palavrão)! O palácio dava idéia duma fortaleza enfeitada, entrar lá dentro, eu!... O 486 então, exaltadíssimo, descrevia coisas piores, massacres horrendos de "proletários" lá dentro, descrevia tudo com a visibilidade dos medrosos, o pátio fechado, dez mil proletários no pátio e os polícias lá em cima nas janelas, fazendo pontaria na maciota. 

Mas foi só quando aqueles três homens bem-vestidos, se via que não eram operários, se dirigindo aos grupos vagueantes, falaram pra eles em voz alta: "Podem entrar! não tenham vergonha! podem entrar!" com voz de mandando assim na gente... O 35 sentiu medo franco. Entrar ele! Fez como os outros operários: era impossível assim soltos, desobedecer aos três homens bem-vestidos, com voz mandando, se via que não eram operários. Foram todos obedecendo, se aproximando das escadarias, mas o maior número longe da vista dos três homens, torcia caminho, iam se espalhar pelas outras alamedas do parque, mais longe.

Esses movimentos coletivos de recusa, acordaram a covardia do 35. Não era medo, que ele se sentia fortíssimo, era pânico. Era um puxar unânime, uma fraternidade, era carícia dolorosa por todos aqueles companheiros fortes tão fracos que estavam ali também pra... pra celebrar? pra... O 35 não sabia mais pra quê. Mas o palácio era grandioso por demais com as torres e as esculturas, mas aquela porção de gente bem-vestida nas escadas enxergando ele (teve a intuição violenta de que estava ridiculamente vestido), mas o enclausuramento na casa fechada, sem espaço de liberdade, sem ruas abertas pra avançar, pra correr dos cavalarias, pra brigar... E os polícias na maciota, encarapitados nas janelas, dormindo na pontaria, teve ódio do 486, idiota medroso! De repente o 35 pensou que ele era moço, precisava se sacrificar: se fizesse um modo bem-visível de entrar sem medo no palácio, todos haviam de seguir o exemplo dele. Pensou, não fez. Estava tão opresso, se desfibrara tão rebaixado naquela mascarada de socialismo, naquela desorganização trágica, o 35 ficou desolado duma vez. Tinha piedade, tinha amor, tinha fraternidade, e era só. Era uma sarça ardente, mas era sentimento só. Um sentimento profundíssimo, queimando, maravilhoso, mas desamparado, mas desamparado. Nisto vieram uns cavalarias, falando garantidos: 

— Aqui ninguém não fica não! a festa é lá dentro, me'rmão! no parque ninguém não pára não! 

Cabeças-chatas... E os grupos deram de andar outra vez, de cá para lá, riscando no parque vasto, com vontade, com medo, falando baixinho, mastigando incerteza. Deu um ódio tal no 35, um desespero tamanho, passava um bonde, correu, tomou o bonde sem se despedir do 486, com ódio do 486, com ódio do primeiro de maio, quase com ódio de viver.
O bonde subia para o centro mais uma vez. Os relógios marcavam quatorze horas, decerto a celebração estava principiando, quis voltar, dava muito tempo, três minutos pra descer a ladeira, teve fome. Não é que tivesse fome, porém o 35 carecia de arranjar uma ocupação senão arrebentava. E ficou parado assim, mais de uma hora, mais de duas horas, no Largo da Sé, diz-que olhando a multidão. 

Acabara por completo a angústia. Não pensava, não sentia mais nada. Uma vagueza cruciante, nem bem-sentida, nem bem-vivida, inexistência fraudulenta, cínica, enquanto o primeiro de maio passava. A mulher de encarnado foi apenas o que lhe trouxe de novo à lembrança a moça do apartamento, mas nunca que ele fosse até lá, não havia pretexto, na certa que ela não estava sozinha. Nada. Havia uma paz, que paz sem cor por dentro... 

Pelas dezessete horas era fome, agora sim, era fome. Reconheceu que não almoçara quase nada, era fome, e principiou enxergando o mundo outra vez. A multidão já se esvaziava, desapontada, porque não houvera nem uma briguinha, nem uma correria no Largo da Sé, como se esperava. Tinha claros bem largos, onde os grupos dos polícias resplandeciam mais. As outras ruas do centro, essas então quase totalmente desertas. Os cafés, já sabe, tinham fechado, com o pretexto magnânimo de dar feriado aos seus "proletários" também.


E o 35 inerme, passivo, tão criança, tão já experiente da vida, não cultivou vaidade mais: foi se dirigindo num passo arrastado para a Estação da Luz, pra os companheiros dele, esse era o domínio dele. Lá no bairro os cafés continuavam abertos, entrou num, tomou duas médias, comeu bastante pão com manteiga, exigiu mais manteiga, tinha um fraco por manteiga, não se amolava de pagar o excedente, gastou dinheiro, queria gastar dinheiro, queria perceber que estava gastando dinheiro, comprou uma maçã bem rubra, oitocentão! foi comendo com prazer até os companheiros. Eles se ajuntaram, agora sérios, curiosos, meio inquietos, perguntando pra ele. Teve um instinto voluptuoso de mentir, contar como fora a celebração, se enfeitar, mas fez um gesto só, (palavrão), cuspindo um muxoxo de desdém pra tudo. 

Chegava um trem e os carregadores se dispersaram, agora rivais, colhendo carregos em porfia. O 35 encostou na parede, indiferente, catando com dentadinhas cuidadosas os restos da maçã, junto aos caroços. Sentia-se cômodo, tudo era conhecido velho, os choferes, os viajantes. Surgiu um farrancho que chamou o 22. Foram subir no automóvel mas afinal, depois de muita gritaria, acabaram reconhecendo que tudo não cabia no carro. Era a mãe, eram as duas velhas, cinco meninos repartidos pêlos colos e o marido. Tudo falando: "Assim não serve não! As malas não vão não!" Aí o chofer garantiu enérgico que as malas não levava, mas as maletas elas "não largavam não", só as malas grandes que eram quatro. Deixaram elas com o 22, gritaram a direção e partiram na gritaria. Mais cabeça chata, o 35 imaginou com muita aceitação. 

O 22 era velhote. Ficou na beira da calçada com aquelas quatro malas pesadíssimas, preparou a correia, mas coçou a cabeça. 

— Deixe que te ajudo, chegou o 35. 

E foi logo escolhendo as duas malas maiores, que ergueu numa só mão, num esforço satisfeito de músculos. O 22 olhou pra ele, feroz, imaginando que 35 propunha rachar o galho. Mas o 35 deu um soco só de pândega no velhote, que estremeceu socado e cambaleou três passos. Caíram na risada os dois. Foram andando.