segunda-feira, 11 de abril de 2022

Olá, você tem um minuto para ouvir a palavra de Epicuro?

 

Epicuro - "Altes Museum", Berlim. 
Foto: Francisco José Nunes

Olá, você tem um minuto para ouvir a palavra de Epicuro?


Por: Francisco José Nunes



Epicuro foi um filósofo que viveu grande parte da sua vida na Grécia, especialmente em Atenas, ele nasceu em 341 e morreu em 270 a.C. 


No início da sua “Carta da Felicidade”, Epicuro diz: 


“Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz. Desse modo, a filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para quem está envelhecendo sentir-se rejuvenescer através da grata recordação das coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que estão por vir; é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcançá-la”.


Epicuro viveu durante o período em que o Império da Macedônia dominou a Grécia e todo o mundo antigo. Diante do imperialismo do Alexandre Magno, Epicuro vai propor a seus discípulos que vivam em comunidade, que estudem filosofia em grupo e que procurem ter uma vida econômica autossustentada.


A proposta de Epicuro foi muito influente no mundo antigo, encontrou semelhanças com as comunidades cristãs primitivas, manteve-se viva durante a Idade Média, ganhou a simpatia dos filósofos iluministas, foi tema da tese de doutorado do jovem Karl Marx e sua proposta permanece viva até os dias atuais.


A filosofia epicurista pode servir de alento nos dias de hoje, porque em meio a este ambiente hostil, caracterizado pela superexploração dos trabalhadores, acirramento do racismo, da violência contra mulheres, negros, indígenas e LGBTQIA+; a ênfase na vida em comunidade, no estudo da Filosofia, e, no esforço para buscar uma vida econômica que não seja dependente do sistema consumista, são, sem dúvida, uma alternativa de resistência e de possibilidade de construção de uma nova sociedade fundamentada em valores elevados, tais como: a justiça no mundo do trabalho, a defesa do meio ambiente, o respeito pela orientação de gênero, a busca pela igualdade social e a vida fraterna.


Sugestão de leitura:


Livro: “Carta da Felicidade”

Autor: Epicuro

Editora da UNESP - 2002 - 51 páginas

Edição bilíngue: Grego/Português

Tradutores: Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore



Autor:

Francisco José Nunes

Mestre em Ciências Sociais - PUC-SP; Graduado em Filosofia; Professor

na Faculdade Paulista de Comunicação - FPAC.


P.S.: Este artigo foi publicado originalmente no site

"Construir Resistência", no dia 17 de setembro de 2021.

domingo, 10 de abril de 2022

O 11 de setembro chileno

 

Filme "Machuca" (Foto: Divulgação)

O 11 de setembro chileno


Por: Francisco José Nunes



No dia 11 de setembro de 1973 o "Palácio de La Moneda”, sede do governo chileno, foi bombardeado por aviões das Forças Armadas Chilenas, com o apoio do governo dos EUA. Esse bombardeio resultou na morte do Presidente Salvador Allende e na tomada do poder pelo General Augusto Pinochet.


O General Pinochet implantou uma das ditaduras mais sanguinárias da América Latina. Torturou, assassinou e desapareceu com milhares de pessoas. Essa ditadura foi de 1973 até 1990.


Os grupos de mídia hegemônicos, após 2001, passaram a repercutir o atentado ocorrido nas Torres Gêmeas de Nova Iorque, no dia 11 de setembro, ofuscando o atentado contra o Palácio de La Moneda, em Santiago do Chile. Ano após ano evidencia-se a hipótese de que as torres 1, 2 e 7 sofreram uma “demolição programada”, conforme relata o documentário: “9/11: Provas Explosivas - Falam os especialistas”. Os objetivos desse atentado caseiro seriam o de aumentar as restrições às liberdades nos EUA e legitimar as guerras promovidas pelos EUA em diversas regiões do planeta.


Para refletir sobre esses episódios e suas implicações nos dias de hoje, um bom caminho é a análise do filme “Machuca” (2004), dirigido pelo cineasta chileno Andrés Wood (“Violeta foi para o céu”).


O filme “Machuca” conta a história de dois garotos de onze anos, que vivem em Santiago do Chile. Entretanto, existe um abismo social entre eles, já que Gonzalo Infante pertence à classe alta e Pedro Machuca é miserável e mora numa favela (“población”). Eles se conhecem numa escola católica frequentada por filhos da elite econômica chilena. O diretor da escola, o padre McEnroe, inspirado nas políticas sociais implementadas pelo Presidente Salvador Allende, decide criar vagas destinadas a garotos pobres. É importante registrar que neste período nascia a Teologia da Libertação na América Latina, em oposição à teologia tradicionalista, que sempre predominou na Igreja Católica.


O garoto Pedro Machuca foi estudar neste colégio, mas foi recebido com hostilidade pelos demais garotos, com exceção de Gonzalo, que o protegeu e com o qual fez amizade.


Ao longo do filme, também assistiremos a reação dos pais dos alunos ricos, contrários à presença de alunos pobres naquele colégio. O encontro entre esses dois garotos ocorreu em 1973 e o filme mostra os sinais do Golpe de Estado que estava a caminho: os empresários boicotando a entrega de produtos, ocasionando o desabastecimento dos supermercados; as atitudes violentas dos militares na favela; as passeatas contra e a favor de Allende.


O golpe no Chile em 1973 levou a esquerda a refletir sobre a sua participação no “jogo democrático burguês”. Da mesma forma como aconteceu no Brasil em 1964 e mais recentemente em 2016, percebe-se que “a burguesia é democrática até a página 2”. Depois que perde nas urnas, dá um golpe e toma o governo novamente.


Depois de Cuba, apenas a Venezuela conseguiu romper com este círculo vicioso. Mas ambos os países pagam um preço muito alto por essa escolha. São penalizados duramente pelo bloqueio estadunidense. A Bolívia, atualmente, está em processo de retomada e de construção do poder popular.


Ficam aqui as duas sugestões: o filme chileno e o documentário estadunidense.


Serviço:


Filme: “Machuca” (2004) - 120 minutos

Direção: Andrés Wood

Plataforma: Netflix


Documentário: “9/11: Provas Explosivas - Falam os especialistas” (2011) - 89 minutos.

Direção: Richard Gage

Plataforma: Youtube e Netflix



Autor:

Francisco José Nunes

Mestre em Ciências Sociais - PUC-SP; Graduado em Filosofia; Professor

na Faculdade Paulista de Comunicação - FPAC.




P.S.: Este artigo foi publicado originalmente no site

"Construir Resistência", no dia 11 de setembro de 2021.


Afeganistão coloca os correspondentes de guerra em evidência

 

Documentário "Morrer para contar" (Foto: Netflix)

Afeganistão coloca os correspondentes de guerra em evidência


Por: Francisco José Nunes




A derrota dos EUA no Afeganistão, com sua retirada caótica no final de agosto passado, colocou em evidência os correspondentes de guerra. O documentário “A vida pela notícia” (2018), produzido pelo jornalista e cineasta Hernán Zin, faz um ótimo panorama sobre o trabalho e os dramas vividos por esses profissionais. 


Hernán Zin nasceu em Buenos Aires (Argentina) e está radicado em Madrid (Espanha). Ele trabalhou em mais de 80 países, publicou vários livros e produziu inúmeros documentários. A motivação para produzir esse documentário surgiu de uma indagação a respeito de um incidente vivido por ele no Afeganistão, em 2012, quando sofreu um ataque de pânico, saiu do tanque onde estava e começou a andar. Ele queria saber porque isso aconteceu. Então decidiu entrevistar vários correspondentes de guerra e percebeu que a maioria deles e delas também sofrem com: pensamentos suicidas, depressão, medo de pequenos espaços, entre outros males.


Dentre os mais de dez correspondentes de guerra entrevistados para o documentário, vamos destacar três aqui.


A repórter do jornal espanhol “El Mundo”, Rosa Meneses, especialista em Oriente Médio e Magreb (região nordeste do continente africano), que fez cobertura da guerra no Líbano, na Líbia, entre outros conflitos. Ela é professora na Universidade Complutense de Madrid e autora de vários livros.


Outro correspondente de guerra entrevistado é Javier Bauluz, natural de Oviedo (Espanha), fotógrafo e o primeiro espanhol a receber o Prêmio Pulitzer, além de ter recebido diversos outros prêmios. Fez a cobertura de muitos conflitos na América Central, África, Balcãs e Oriente Médio.


O documentário também entrevistou Carmen Sarmiento, uma jornalista natural de Madrid (Espanha), hoje com 76 anos. Fez a cobertura de inúmeros conflitos, dentre eles: as revoluções na Nicarágua e em El Salvador, a guerra no Líbano, os golpes de estado em Portugal, Argentina, Granada e Gana. Ela é uma destacada ativista feminista.


Em que pese esses correspondentes trabalharem para os grandes grupos empresariais de mídia, o que implica reproduzir a doutrina atlanticista, imposta pela OTAN, vale a pena assistir o documentário. Trabalhar para os grandes grupos de mídia obriga o profissional a reproduzir uma narrativa elaborada a partir de uma visão eurocêntrica e em sintonia com os interesses da Casa Branca, onde são produzidas classificações e regras para usar um vocabulário específico, tais como: tal país é democrático e tal país é uma ditadura, tal presidente é democrático e tal presidente é um ditador, tal político é democrático e tal político é um terrorista. O documentário é importante por tratar do Afeganistão, da vida de profissionais dedicados ao jornalismo e, em muitos casos, comprometidos com os direitos humanos e com a justiça social.


Serviço:


Título: A vida pela notícia (2018)

Título original: Morir para contar


Documentário espanhol

Direção: Hernán Zin

Tempo: 87 minutos

Plataforma: Netflix



Autor:

Francisco José Nunes

Mestre em Ciências Sociais - PUC-SP; Graduado em Filosofia; Professor

na Faculdade Paulista de Comunicação - FPAC.






P.S.: Este artigo foi publicado originalmente no site

"Construir Resistência", no dia 03 de setembro de 2021.


Série sobre a Igreja do Reino da Luz é imperdível

 

Série "Vosso Reino" (Foto: Netflix)

Série sobre a Igreja do Reino da Luz é imperdível


Por: Francisco José Nunes




A série “Vosso Reino” (El Reino) estreou na plataforma Netflix no dia 13 de agosto, uma sexta-feira. É uma série de produção argentina com uma dupla de roteiristas super premiados: Claudia Piñeiro e Marcelo Piñeyro. O elenco é formado por ótimos atores e atrizes, dentre eles: Diego Peretti, Mercedes Morán e Chino Darín.


A trama da série gira em torno do Pastor Emilio Vázquez Pena, líder da “Igreja do Reino da Luz” e candidato a Vice-Presidente da Argentina. Entretanto, na noite do lançamento da chapa, o candidato a Presidente levou uma facada. Esse acontecimento abre a oportunidade para que o Pastor Emilio seja o candidato a Presidente. 


Ao longo dos oito episódios ocorrerão as investigações para identificar o autor da facada e qual seria a motivação do crime. Qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência. O Pastor Emilio defende a pauta do fundamentalismo religioso: a tal da “ideologia de gênero”, a pregação homofóbica e o combate à legalização do aborto. A roteirista da série, Claudia Piñeiro participou ativamente na campanha que conquistou a aprovação da lei do “Aborto Legal” na Argentina (30 de dezembro de 2020), simbolizado pelo “pañuelo verde”. Nos cultos realizados na igreja, o grupo musical usa o “pañuelo celeste”, símbolo do movimento contrário à legalização do aborto, liderado principalmente por evangélicos e católicos.


As cenas ocorrem principalmente na igreja, que está anexada a uma grande mansão, com muitos quartos, sala para refeições e escritório. Nesta casa mora o casal Pastor Emilio e sua esposa Elena Vázquez Pena. Ela exerce uma enorme influência em Emilio, na família e na igreja. Também moram na casa filhos e filhas, naturais e adotados. Alguns solteiros, uma delas é casada. 


O outro local importante das cenas é o “Lar Meninos da Luz”, casarão para onde são levadas crianças e adolescentes que vivem nas ruas de Buenos Aires. Essas crianças são “adotadas” pelo casal Pastor Emilio e Pastora Elena. Esse “Lar” é dirigido por filhos adotados pelo casal.


A série também faz referência: ao uso da igreja para fazer “lavagem de dinheiro”, arrecadação de dinheiro para financiar candidaturas de deputados e senadores, aos casos de pedofilia, o uso da figura do “Diabo” para justificar situações de abusos e de discriminação. Mostra também que o aparelho repressor, que atuou muito fortemente durante a última ditadura argentina (1976-1983) não foi totalmente desmontado. Pelo contrário, continua praticando tortura, desaparecimentos e assassinatos. Isso tudo somado ao Sistema Judiciário, extremamente serviçal à elite argentina. A Promotora de Justiça Roberta Candia (Nancy Dupláa) é uma das exceções e desempenha um ótimo trabalho de investigação, mas é afastada do caso por “ordens superiores”.


Ao apresentar a sua candidatura à Presidência da Argentina, o Pastor Emilio Vázquez Pena faz um discurso bastante conhecido no Brasil e na maioria dos países da América Latina: “Vou defender o valor da família, do amor e da ordem. A Justiça na Argentina funciona para proteger os delinquentes. Que pai pode ser julgado por querer uma arma para defender sua família?”


Um personagem importante na série é Rubén Osório, um jovem que foi cooptado pelo sistema de repressão militar para atuar infiltrado no movimento estudantil. Durante a crise econômica argentina, entre 2001 e 2002, ele atuou para desmantelar os protestos populares. Por seus “serviços prestados” ele foi promovido na hierarquia do serviço secreto. Mais recentemente, Osório foi para os EUA aprender com a equipe de Donald Trump as técnicas para manipular as redes sociais em benefício das pautas da extrema-direita. Atualmente ele desempenha um importante papel nas disputas eleitorais na Argentina e na América Latina.


A série não consegue esconder a paixão entre argentinos e brasileiros! Sintetizada na fatídica frase: “Os argentinos odeiam amar os brasileiros e os brasileiros amam odiar os argentinos”. De fato, a produção artística dos argentinos é invejável! Sempre é bom lembrar que a série é uma obra de ficção. Tem uma pitada de “realismo mágico” ao bom estilo dos escritores Julio Cortázar e Jorge Luis Borges. Tem uma música de Roberto e Erasmo Carlos: “Sentado à beira do caminho”. A primeira temporada deixou várias histórias em aberto. Tudo indica que teremos uma segunda temporada. É uma ótima série “para maratonar”!


Serviço


Série: Vosso Reino (El Reino)

País: Argentina

Lançamento: 13 de agosto de 2021

T1 - 8 episódios (média de 40 min. cada)

Plataforma: Netflix



Autor:

Francisco José Nunes

Mestre em Ciências Sociais - PUC-SP; Graduado em Filosofia; Professor

na Faculdade Paulista de Comunicação - FPAC.



P.S.: Este artigo foi publicado originalmente no site

"Construir Resistência", no dia 27 de agosto de 2021.


sábado, 9 de abril de 2022

Agosto: mês de desgoto e mês de luta pela vida

 

Obra: "O Grito" (1893), de Edvard Munch (reprodução)

Agosto: mês do desgosto e mês de luta pela vida


Por: Francisco José Nunes



No senso comum é costume dizer que “agosto é o mês do desgosto”! São atribuídas inúmeras razões para justificar esta sentença. Na Idade Antiga diziam que um grande dragão sobrevoava, em agosto, a cidade de Roma soltando fogo pelas ventas; que o dia 24 de agosto seria o “Dia do Diabo” e que neste dia as portas do inferno estariam abertas.


Em Portugal, durante o período das “grandes navegações” não era aconselhável marcar casamento em agosto, porque nesse mês saia a maior parte das caravelas e, por consequência, ocorreriam as separações e até a viuvez. Daí o famoso dito popular: “casamento em agosto, casamento de desgosto”.


O trágico massacre da “Noite de São Bartolomeu” foi no dia 24 de agosto de 1572, quando os Católicos assassinaram milhares de Protestantes na França. Também foi no mês de agosto de 1945 que os EUA atiraram as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, nos dias 6 e 9, respectivamente.


No Brasil, o Presidente Getúlio Vargas se matou no dia 24 de agosto de 1954; o Presidente Jânio Quadros renunciou à presidência no dia 25 de agosto de 1961 e no dia 31 de agosto ocorreu o Golpe de 2016, culminando com o afastamento da Presidenta Dilma Rousseff.


Evidentemente, muitos acontecimentos positivos ocorreram no mês de agosto, ao longo dos séculos. Mas a cultura popular enfatiza os aspectos sombrios. 


Tudo indica que os principais desgostos do mês de agosto de 2021 serão proporcionados pelos movimentos negacionistas e anticientificistas. Movimentos que estavam em crescimento antes da pandemia do coronavírus e permanecem em franco crescimento. Segundo o professor Christian Dunker (USP), o negacionismo costuma se manifestar principalmente de três maneiras: a) como uma criança, que diante daquilo que desagrada ou causa medo, fecha os olhos acreditando que esta atitude afastará o perigo; b) como fanatismo, quando a pessoa negacionista é manipulada por grupos políticos de extrema-direita, chegando a participar de ações públicas contra medidas sanitárias; c) como multidão, isto é, desrespeitando as regras sanitárias, se incorpora à maioria das pessoas, acreditando que a negação coletiva da pandemia trará de volta o “novo normal”.


Já é sabido que a vacina não é remédio. Vacina é um recurso que faz parte de um Plano de Imunização e que pelo menos 80% da população precisa ser vacinada, dentro do prazo correto, para que tenha sucesso. Pelo andar da carruagem, tudo indica que não atingiremos essa taxa. Seja porque o atual governo faz uma campanha pesada contra a vacina, bem como porque muitas pessoas se negam a tomar a vacina.


O comportamento antivacina e anti-medidas sanitárias causou o surgimento de inúmeras variantes do coronavírus. Estamos convivendo com as variantes: Gama, Delta, Alfa e Beta. Cada uma mais nefasta do que a outra. Lamentavelmente, grande parte da população está sendo seduzida pelo discurso do “novo normal”. Baseado na precária campanha de vacinação, explorando o anseio das pessoas por desejarem voltar à “vida normal”. Esse comportamento cria constrangimento nas pessoas que ainda insistem em usar máscara (no padrão correto), usar óculos, seguir os protocolos de segurança sanitária (higiene das mãos, distanciamento social, calçados e roupas na entrada da casa etc.). A vacinação está desencadeando um movimento de “liberô geral”. Isto é, depois de vacinada a pessoa pode voltar à sua “vida normal”. 


Esta situação complexa está causando sofrimento em muitas pessoas, porque ficam com dificuldades para decidir como agir. Sem dúvida, a primeira decisão é continuar obedecendo as normas de segurança sanitária, seguir na luta em defesa da ciência e do bom senso! No que diz respeito às relações humanas o drama é enorme, porque grande parte das pessoas negacionistas estão muito próximas. São parentes, vizinhos, amigos, colegas de trabalho, da escola e da igreja.


Precisamos admitir que, caso não ocorra uma revolução ecossocialista, teremos que conviver neste ambiente pandêmico por muito tempo. Isso significa, inclusive, admitir que estaremos constantemente ameaçados pela morte em grande intensidade. Isso altera muito a nossa visão de mundo e os nossos critérios de relacionamento.


Tudo indica que o grande desgosto deste mês de agosto serão as consequências das novas variantes do coronavírus, que deixarão um enorme rastro de mortos e sequelados. Percebe-se que o lema predominante ao longo da pandemia - “foda-se” - tem agora a sua versão macabra: “a vida não vale nada”. A busca pelo “novo normal” não tem motivação econômica (porque todas as decisões de “política econômica” tomadas antes e durante a pandemia, foram para destruir empregos e destruir as condições minimamente humanas para trabalhar); a busca pelo “novo normal” não tem motivação política (porque a maioria das pessoas adotou uma postura omissa, permitindo que os fascistas e o neoliberais assumissem a condução da política); a busca pelo “novo normal” não tem motivação social (porque o que prevaleceu durante a pandemia foi o egoísmo e os comportamentos anti-sociais); a busca pelo “novo normal” não tem motivação cultural (porque o processo de desmonte da cultura e desvalorização dos trabalhadores e trabalhadoras da cultura continua em marcha - e incêndios - acelerada); a busca pelo “novo normal”, sequer tem motivação religiosa (porque as grandes religiões adotaram a “teologia sacrificial”, sinalizam que as mortes e doenças são para expiar os pecados; na verdade, tratam-se de práticas idolátricas, que oferecem o sacrifício de vidas humanas para os ídolos).


O mês de agosto de 2021 está em aberto, cabe a nós enfrentarmos as causas dos desgostos e proporcionarmos - para nós e para a sociedade - novos gostos e novos sabores!



Autor:

Francisco José Nunes

Mestre em Ciências Sociais - PUC-SP; Graduado em Filosofia; Professor na Faculdade Paulista de Comunicação - FPAC.


P.S.: Este artigo foi publicado originalmente no site "Construir Resistência", no dia 18 de agosto de 2021.


sexta-feira, 8 de abril de 2022

Quem se interessa pela idosa da Van?

 


Quem se interessa pela idosa da van?

 

Por: Francisco José Nunes

 

          O filme “A Senhora da Van” (2015) aborda a vida de uma homeless inglesa, de maneira complexa, dramática e com a acidez típica do humor britânico. A história é baseada em fatos reais, com um toque de “realismo mágico”, ao estilo Gabriel García Marquez.

 

          Trata-se da história de Mary Shepherd (Maggie Smith), uma idosa que nos anos 1970 estaciona sua van no bairro Camden Town, em Londres. Ela mora nessa van, não tem bons hábitos de higiene e acumula sacolas plásticas. Hostilizada pelos habitantes do bairro, ela é proibida de estacionar sua van na rua. O único morador que a tolera é Alan Bennett (Alex Jennings), que permite que ela use o banheiro de sua casa e autoriza que ela estacione sua van “provisoriamente” na sua vaga de garagem. Mas ela acaba ficando durante 15 anos.

 

Miss Shepherd é uma pessoa complexa, no sentido pleno dessa palavra. É misteriosa, não se abre com ninguém; é seguidora do catolicismo conservador; faz declarações homofóbicas e anti-comunistas; e, tem um constante complexo de perseguição. Some-se a isso os problemas comuns que atingem as pessoas idosas: dificuldades na visão, oscilação entre demência e lucidez, problemas intestinais, entre outros. 

 

O filme é baseado na vida de Margaret Fairchild, uma homeless, que falava um inglês impecável, sabia tocar piano e falava francês fluentemente. Nos anos 1970, ela estacionou sua van na Rua Gloucester Crescent, no Bairro Camden Town, um bairro de classe média londrino. Próximo à casa de Alan Bennett, um escritor de peças de teatro. Após ceder a sua vaga de garagem, para que ela estacionasse a sua van, ela ficou por 15 anos, até a sua morte no dia 28 de abril de 1989, aos 78 anos.

 

Somente após a morte da Sra. Fairchild é que Alan Bennett ficou sabendo que ela, na juventude, estudou piano com o maestro Alfred Cortot. Nessa época optou por ingressar num convento de freiras. Entretanto, no convento, foi proibida de continuar tocando piano. Durante a Segunda Guerra Mundial trabalhou como motorista de ambulância. Depois da Guerra foi morar com a sua mãe. Passou a ter problemas de saúde mental, foi internada em clínica psiquiátrica e, depois de inúmeras fugas, recebeu alta. Envolveu-se em um acidente de trânsito e passou a viver dentro da sua van. 

 

No filme, a Sra. Shepherd é atendida por duas Assistentes Sociais, refletindo a importância dessas profissionais e a complexidade no atendimento das pessoas em situação de rua, especialmente as pessoas idosas.

 

É impossível assistir a esse filme e não se lembrar do Padre Júlio Lancellotti, de todos os profissionais e voluntários que atuam na atenção às pessoas em situação de rua, em São Paulo.

 

O filme gira em torno da brilhante atriz Maggie Smith, com 81 anos, quando fez a gravação. Atualmente está com 86 anos. Ela já ganhou dois Oscar, três Globos de Ouro e 46 prêmios. Ficou muito popular quando participou nos filmes da saga Harry Potter, com os papéis de Minerva McGonagall, vice-diretora de Hogwarts, professora de transfiguração e chefe da casa Grifinória. 

 

O filme “A Senhora da Van” é muito oportuno para esses tempos sombrios que estamos vivendo. Porque trata o drama das pessoas em situação de rua com equilíbrio e doçura. Principalmente por chamar a atenção para o fato de desconhecermos as histórias de vida dessas pessoas.

 

Serviço:

Filme: “A Senhora da Van” (2015)

Direção: Nicholas Hytner

Roteiro: Alan Bennett

Plataforma: Netflix

 

Autor:

Francisco José Nunes

Mestre em Ciências Sociais - PUC-SP; Graduado em Filosofia; Professor na Faculdade Paulista de Comunicação - FPAC. 

 

P.S.: Esta resenha foi publicada originalmente no site "Construir Resistência", no dia 19 de agosto de 2021.


quinta-feira, 7 de abril de 2022

Sobre o editorial da Folha "Ensaio de ditador" (06/08/2021)

 

Avenida Paulista, vista do Mirante do Sesc 
(Foto: Francisco José Nunes)


Sobre o editorial da Folha “Ensaio de ditador” (06/08/2021)


Por: Francisco José Nunes



Quando a Folha diz que a “Inação de PGR e Congresso põe a democracia em risco”. É importante frisar que a democracia acabou quando a Folha e os demais grupos de comunicação apoiaram a “Lava Jato”, que culminou no Golpe de 2016 (“com o STF, com tudo”). Que a Folha proibiu os seus jornalistas de escrever que o candidato à Presidência era um “político de extrema direita”.


É impressionante como o Grupo Folha gosta de passar vergonha em público”! Quer dizer que apenas 30 anos depois de ter entrado na vida pública é que a Folha descobriu que o atual presidente é um “Ensaio de ditador”. Aquele que tem por herói o torturador e assassino Brilhante Ustra!


A Folha está equivocada ao afirmar que há “ausência de governo”. Muito pelo contrário! O governo está cumprindo religiosamente o que prometeu na campanha: desmonte da Previdência Pública, desmonte da Legislação Trabalhista, desmonte do Funcionalismo Público, desmonte do Ensino Público, desmonte do SUS, desmonte da Ciência e Tecnologia, desmonte da Legislação Ambiental, autonomia total do Banco Central, venda “a preço de banana” do Patrimônio Público (Petrobrás, Eletrobrás, Correios etc), “bolsa banqueiros”, benefícios escandalosos para os militares, “liberô geral” para a compra de armas e munição (em benefício dos milicianos e dos “cidadãos de bem”). A lista é interminável!


A própria Folha denunciou o uso de “disparos em massa” de mensagens na internet durante as eleições de 2018 e ficou por isso mesmo. Só esse crime já seria suficiente para anular a eleição da chapa. Não bastasse a prisão ilegal do candidato que estava em primeiro lugar durante a campanha.


O cinismo da Folha é tão grande que, ao relacionar alguns dos problemas econômicos: alta no desemprego, aumento nos preços da energia, dos produtos alimentícios, dos combustíveis, dos aluguéis, fuga de investidores, desvalorização do real, agressão aos parceiros comerciais etc. A Folha não reconhece que abraçou e se beneficia da agenda neoliberal capitaneada pelo Ministro Paulo Guedes.


A Folha reclama a respeito da falta de exame dos mais de 100 pedidos de impeachment, cobra de Arthur Lira (PP-AL), mas omite o papel nefasto de Rodrigo Maia (ex-DEM-RJ).


A Folha cinicamente apela para as instituições, para que impeçam o presidente de aprofundar o golpe e de acabar com essa fachada de democracia. Mas a Folha não diz que esse estado de coisas conta com o apoio de instituições poderosas: os banqueiros, os empresários, o agronegócio, os magnatas da comunicação, a maioria dos católicos, a maioria dos evangélicos, os militares, o Judiciário, o CFM, a OAB. A lista é enorme.


Não se pode esperar nada, em benefício da democracia, que venha de um jornal que apoiou o Golpe de 1964, forneceu caminhonetes para os grupos da repressão, afirmou em editorial que foi apenas uma “ditabranda”, surfou na “Campanha das Diretas Já”, mas entregou a “eleições indiretas”.


Não assino e nem leio a Folha diariamente há muito tempo. Li esse editorial por recomendação de alguns amigos. Lamentavelmente muitos amigos continuam assinando a Folha e o UOL. Muitos continuam escrevendo e dando entrevista para estes veículos. É preciso mais do que nunca deslegitimar esses “latifúndios da comunicação”. É preciso fortalecer a imprensa independente e de esquerda. É preciso combater o mito da “neutralidade da imprensa”.



Autor:

Francisco José Nunes

Mestre em Ciências Sociais - PUC-SP; Graduado em Filosofia; Professor na Faculdade Paulista de Comunicação - FPAC.


P.S.: Este artigo foi publicado originalmente no site "Construir Resistência", no dia 07 de agosto de 2021.